
Por: António Mendonça
Bastonário
É tempo de se pensar na produção de uma parceria entre o sector empresarial e o Estado que permita explorar as vantagens da iniciativa privada e do funcionamento do mercado.
A utilização do termo competitividade banalizou-se, nas três ou quatro últimas décadas. É utilizado na Economia, nas diferentes dimensões, micro, meso, macro, transversal, ou vertical, nacional, internacional ou global, mas também noutras áreas, incluindo a Psicologia, os Comportamentos, a Política, etc.
A maior parte das vezes, infelizmente, é utilizado de forma simplista, sem ter presente a complexidade que está associada à sua génese, desenvolvimento e sustentabilidade, no médio e longo prazo.
Uma das mais interessantes definições de competitividade deve-se ao professor Emérito Stéphane Garelli, referência das análises promovidas pelo IMD. Segundo este autor, e fazendo uma tradução livre, “A competitividade é a capacidade de criar valor acrescentado e, portanto, de aumentar a riqueza nacional através da gestão de ativos e processos, de atratividade e agressividade, de globalidade e proximidade, e integrando estas relações num modelo económico e social” (“World Competitiveness Yearbook”, 1966).
Esta definição implica considerar a relação entre o ambiente nacional de um país – onde o Estado tem um papel fulcral – e o processo de criação de riqueza, levado a cabo pelas empresas e pelos diversos agentes económicos. Isto significa, ainda, que um país pode ser rico e não necessariamente competitivo, vivendo de rendimentos sem, efetivamente, criar valor acrescentado novo. Ou pode não ser tão rico assim e ser competitivo, criando efetivamente valor acrescentado novo.
Nesta perspectiva, a competitividade não poderá ser resumida a uma simples expressão cardinal, mas antes a um conjunto de fatores que, integrados, contribuem para a criação de um ambiente económico próprio que permite o desenvolvimento competitivo e sustentado de um país.
Vários serão esses fatores, variando com o tempo, as alterações estruturais da economia e a envolvente externa do país. Mas, não poderão deixar de estar ligados ao desempenho económico geral, à eficiência da ação governativa, à eficiência do sector empresarial ou ao nível e qualidade geral das infraestruturas, sem esquecer o funcionamento das instituições, ou a evolução do nível educacional, cultural e de saúde pública.
Isto significa, também, que a competitividade de um país não pode ser obtida apenas a partir da mera agregação de desempenhos particulares, mas através da criação de um sistema integrado, com diferentes níveis de produção de eficiência e desempenho que vão do nível empresarial à definição da política económica pelo Estado, passando pela introdução de uma perspectiva estratégica que deve permitir a integração de projetos e a sua coerência sistémica.
A dinâmica de globalização, assente na acelerada abertura das economias e na constituição de cadeias globais de valor acrescentado, parece ter entrado em regressão, com a emergência de novas tendências que apontam para um fracionamento da economia global, a constituição de polos de interesses diferenciados e mesmo antagónicos, e movimentos espontâneos ou forçados de renacionalização económica sob diferentes formas, incluindo uma nova reindustrialização e reforço de relações de proximidade, baseada em afinidades de diversa natureza.
Portugal não se pode resignar a ser um agente passivo desta reconfiguração profunda das relações económicas que se está a processar à escala global, devendo desde já preparar-se para responder aos desafios de uma nova competitividade que assentará, sobretudo, em mais diversificação, coerência e sustentabilidade dos sistemas produtivos internos e maior flexibilidade na resposta aos novos estímulos externos.
É tempo de se pensar na produção de uma parceria entre o sector empresarial e o Estado que permita explorar as vantagens da iniciativa privada e do funcionamento do mercado, em articulação com a introdução de uma perspectiva estratégica de longo prazo. Uma espécie de Parceria Público-Privada macroeconómica que permita produzir uma competividade sistémica que se afirme como novo paradigma da economia portuguesa.
In Jornal Económico – 31 de janeiro de 2025






2 Responses
Muito bom. Se acordo. ARS
O artigo apresenta uma visão interessante sobre a relação entre o Estado e o setor privado na competitividade, mas há uma questão fundamental que precisa de ser debatida: será que o Estado não é um problema em si mesmo? Historicamente, onde quer que o Estado tenha intervindo, a longo prazo, não se tornaram evidentes problemas de ineficiência, burocracia excessiva e captura por interesses particulares? Se a competitividade depende de um ambiente propício ao crescimento, não será a excessiva intervenção estatal um entrave mais do que um facilitador?
Se olharmos para os modelos históricos, o capitalismo financeiro dos EUA demonstrou ser, até à data, o mais eficiente. A capacidade de alocar capital de forma dinâmica, impulsionar a inovação e permitir o crescimento de grandes corporações sustentou a supremacia económica americana.
Mas qual é o problema central do capitalismo? A desigualdade estrutural e a tendência para uma acumulação que beneficia sistematicamente os mais ricos, reduzindo a mobilidade social e enfraquecendo o crescimento de longo prazo.
A solução? Um modelo de capitalismo financeiro de cariz popular, na linha do que foi defendido por Thatcher e Reagan: um sistema onde uma maior percentagem da população tem acesso real aos mercados financeiros, beneficiando diretamente da criação de riqueza e do crescimento das empresas. Tendencialmente, todos terem capital a trabalhar para seu proveito.
O verdadeiro desafio para a UE não é apenas melhorar a competitividade, mas sim criar um mercado de capitais europeu ao nível – ou superior – ao dos EUA, permitindo que os cidadãos participem ativamente na economia através da poupança e do investimento.
No entanto, este modelo enfrenta um obstáculo fundamental: a falta de educação financeira generalizada. Sem um esforço massivo para capacitar a população na gestão dos seus ativos e investimentos, o risco é que apenas uma minoria continue a beneficiar, perpetuando os problemas do capitalismo tradicional. Assim, a verdadeira revolução competitiva para a Europa e para Portugal pode não estar apenas na eficiência produtiva, mas sim na democratização do acesso ao capital e na criação de um sistema onde todos possam prosperar.
Tal como podemos concluir do livro The Intelligent Asset Allocator, de William Bernstein, “Everybody’s grandchildren ought to be rich”, qualquer neto de alguém que poupe e invista de forma ajuizada poderá ser rico. O poder dos juros compostos, aliado a uma gestão eficiente de ativos, demonstra que a acumulação de riqueza não é uma questão de sorte, mas sim de disciplina e visão de longo prazo.