
Por: António Covas
Membro Efetivo nº638
Os serviços de ecossistema, na sua aceção mais ampla, são os bens comuns da economia política do século XXI. Não falamos do elenco clássico de serviços de ecossistema – aprovisionamento de recursos, regulação ambiental, suporte à produção, valores culturais – mas, agora, de um complexo de serviços, de uma verdadeira constelação de serviços de ecossistema, a base da economia política do bem comum e do ator-rede que operacionaliza essa constelação. A sua interdependência sistémica forma verdadeiras constelações de serviços que são transversais a toda a sociedade:
Estas constelações de serviços permitem-nos observar duas grandes transições em curso. Em primeiro lugar, a operacionalização das economias de rede e aglomeração para lá das afetações operadas pelos mercados e instituições. Agora, com as redes e plataformas, tudo é interface, hiperligação e interoperabilidade. Em segundo lugar, permite-nos, igualmente, observar uma Grande Transição, aquela que substitui o modelo político-administrativo de hierarquia, comando e controlo do século XX – o modelo silo – pelo modelo político-tecnológico assente em plataformas colaborativas de cocriação e cogestão horizontal do século XXI – o modelo do ator-rede. Vejamos o sentido desta grande transição em direção à nova economia política do século XXI.
Em primeiro lugar, é fundamental definir um conceito geoestratégico para este universo de serviços de ecossistema, em busca de uma linha de rumo e de uma consistência interna mínima, sabendo nós que, doravante, a centralidade do novo modelo caberá à constelação de serviços de infraestruturas críticas e na cadeia de valor que liga descarbonização, eletrificação, tecnologia, computação avançada e cibersegurança.
Em segundo lugar, trata-se de elencar as internalidades e externalidades de cada constelação, isto é, as suas interfaces, articulações e complementaridades, não apenas internas, mas, também, as hiperligações externas e a intensidade-rede que devemos imprimir às suas economias de aglomeração.
Em terceiro lugar, trata-se de programar e implementar a constelação das principais infraestruturas críticas que são transversais a todos os serviços: a agenda mobilizadora, os empreendimentos de fins múltiplos, as parcerias público-privadas e os consórcios empresariais necessários e a respetiva engenharia financeira.
Em quarto lugar, trata-se de transpor estas constelações de serviços para uma geografia específica de um território particular e indicar uma estrutura de missão executiva, o um ator-rede, que execute o programa e estabeleça a cooperação multiterritorial que se justificar.
Finalmente, trata-se de adaptar o modelo silo de administração pública à sociedade em rede e ao conceito geoestratégico de segurança nacional. Falamos de comunidades online, plataformas e aplicações, mas, sobretudo, de uma reforma nas prioridades estruturais da administração pública para este século, desde logo, as indústrias de defesa e segurança e o seu uso múltiplo (1), os dispositivos tecno-digitais e a arquitetura de cibersegurança (2), a redefinição da oferta de serviços públicos à luz das novas tecnologias e IA (3), a reinvenção das interfaces entre economia criativa e territórios inteligentes (4).
No final, a operação de infraestruturas e serviços de ecossistema mudou substancialmente e isso é visível no quadro político-institucional atual. Senão vejamos:
– A cadeia de valor da descarbonização, eletrificação, inteligência artificial, computação avançada, já não cabe nos limites do quadro político-institucional;
– A cadeia de valor das indústrias de defesa e segurança já não cabe nos limites do quadro político-institucional;
– A escala das operações, europeias e globais, os seus efeitos externos, os novos custos de contexto, já não cabem no quadro político-institucional;
– O grau de criticidade do risco climático, nuclear, tecnológico, cibernético e geopolítico, é de tal modo elevado que já não cabe no quadro político-institucional;
– A boa governança das hiperligações e interoperabilidade das infraestruturas críticas está de tal modo dependente dos protocolos e dispositivos algorítmicos que já não cabe no quadro político-institucional;
– Os vieses cognitivos impostos pelo padrão algorítmico nos dispositivos de monitorização e cibersegurança põem em causa a saúde cognitiva de uma organização e já não cabem no quadro político-institucional.
Aqui chegados, não é fácil a um pequeno país como Portugal, sem um conceito geoestratégico de segurança nacional bem consolidado, posicionar-se no atual xadrez internacional e prosseguir uma linha de rumo que o proteja das externalidades negativas emanadas de um contexto geopolítico dominado pelas políticas de potência. Um país pequeno tem óbvias dificuldades de escala, eficiência e competitividade e o crescimento das despesas com as indústrias e tecnologias de defesa e segurança tem consequências diretas sobre os assuntos sociais, ambientais e territoriais, sendo que as primeiras vítimas são, desde logo, as infraestruturas críticas e os serviços de ecossistema que lhe correspondem. Estas disfunções político-institucionais da administração pública não asseguram a interoperabilidade e qualidade dos serviços públicos e a sua eventual descontinuidade não garante a privacidade e liberdade do cidadão na sociedade tecno-digital.
Uma boa ilustração destas múltiplas disfunções horizontais diz respeito às alterações climáticas. Está em causa a linha de interoperabilidade que liga o subsistema de prevenção de riscos, ao subsistema tecnológico de decisão inteligente, ao subsistema de emergência e mitigação de acidentes e ao subsistema de segurança económica que preserva a coesão dos territórios mais vulneráveis. Esta hiperligação e interoperabilidade, ou a falta dela, tem um impacto profundo na condição de vida das populações mais vulneráveis e remete-nos para uma mudança substancial na supervisão macro prudencial da economia política do século XXI e nas funções da administração pública neste contexto. Essa é, também, a razão pela qual o governo português acaba de aprovar o PTRR 28/34 – programa de transformação, recuperação e resiliência – ao reconhecer que o país acumulou fragilidades imensas em infraestruturas críticas ao longo das últimas décadas devido ao subinvestimento crónico em capital público. Em definitivo, está em causa a próxima geração de infraestruturas e bens comuns, ou seja, a economia política dos serviços de ecossistema para o século XXI.





