Recessão à vista

Por: João Ferreira do Amaral

Estamos em fase de desaceleração económica, tanto a nível europeu como a nível nacional. Não é uma surpresa. A política monetária de combate à inflação na zona euro tem passado por aumentos rápidos da taxa de juro, o que em economias que estão em geral bastante endividadas, cria dificuldades graves para muitas famílias e empresas, com consequências imediatas sobre o ritmo de crescimento económico.

Note-se que, com o actual enquadramento institucional da zona euro, dificilmente se poderia combater a inflação de outra maneira que não fosse através do aumento da taxa de juro. O Banco Central Europeu manteve até muito tarde taxas de juro anormalmente baixas de forma a não prejudicar a recuperação pós-pandémica mas com o agravamento da situação decorrente do início da guerra na Ucrânia teve de mudar rapidamente a sua política monetária.

A interrogação que vem imediatamente à ideia é a seguinte: será que se justifica provocar uma recessão na zona euro através de um forte aumento da taxa de juro quando, afinal o crescimento de preços, apesar de tudo, era inferior a 10% ao ano e portanto não exigia medidas tão drásticas? Do meu ponto de vista a resposta é não, não se justifica. Mas as instituições da moeda única são que são e não deixam outra alternativa.

A debilidade institucional da zona euro tem sido denunciada muitas vezes e de muitas maneiras. Em última análise, decorre da exigência de aplicar políticas macroeconómicas únicas a um espaço que é profundamente heterogéneo, tão heterogéneo que hoje como em 1999 a zona euro está muito afastada de poder ser considerada uma área monetária óptima.

No caso do combate à inflação através de aumentos da taxa de juro, a heterogeneidade que está em principalmente em causa é a dos níveis de endividamento. Sendo as economias modernas em geral historicamente endividadas, continuam a existir grandes diferenças de nível de endividamento dentro da zona euro. Ora o mesmo aumento da taxa de juro para economias muito diferentes em termos de endividamento traz como consequência que o impacto recessivo é também muito diferenciado e que os países mais endividados sofrem muito mais que os países menos endividados. Provavelmente, se tivessem opção os países mais endividados preferiam suportar um pouco mais de inflação desde que fosse necessário para ter menos recessão. A verdade, porém é que na zona euro essa opção não existe e com o fundamentalismo do combate à inflação que decorre das respectivas instituições, em particular dos estatutos do BCE, a estabilidade de preços tem prioridade sobre tudo o resto.

Quanto à nossa economia, é provável, embora não inteiramente certo, que entre em recessão, ainda que, para já, não haja razões para acreditar que a recessão, a ocorrer seja grave.

Mas há razões para preocupação que têm a ver com a crise social e com a crise politica.

Desde o ano passado que a crise é mais uma crise social do que uma crise económica que, verdadeiramente, para já não existe nem existiu em 2022.

A crise social resultou da forma como o governo decidiu que se deveriam partilhar os custos do combate à inflação. Numa primeira fase, durante grande parte de 2022, entendeu que deveriam ser os salários (e em menor grau as pensões) que deveriam suportar os custos da desinflação, através de uma descida dos salários reais e portanto de uma grande diferença, entre crescimento da produtividade – que foi forte – e (de)crescimento dos salários reais. Para o final de 2022 apercebeu-se que a crise social se estava a instalar rapidamente e tentou reverter parcialmente a partilha dos custos da desinflação, induzindo algum aumento dos salários. Não foi, contudo suficiente e a crise social agravou-se, com impacte grande sobre o funcionamento de serviços públicos essenciais.

Também a inesperada crise política poderá a vir a ter consequências negativas pois não cria um ambiente de optimismo para a actividade económica e o eleitoralismo, que está em crescendo, não é bom conselheiro.

Convém pois que continuemos muito atentos aos indicadores económicos.

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