
Por: Jorge Fonseca de Almeida
Membro Conselheiro nº1083
A confusão entre meios e fins acarreta sempre erros de perceção graves e, muitas vezes, decisões contraproducentes. O que se passou com os exames nacionais configura este tipo de equívoco por parte do Ministro.
Comecemos por estabelecer a ordem correta. Exames com correção mais fiável, anónima, rápida, eficiente e a custos mais baixos são fins. A digitalização não passa de uma técnica, entre outras, para atingir aqueles fins.
Deste ponto de vista erigir a digitalização a fim em si mesma e, por essa vi, destruir todos os verdadeiros fins que se almejam é um erro de proporções tais que colocam quem toma tal decisão no patamar da pura incompetência.
Portugal dispunha de um sistema de exames. Podia ser melhorado? Sim. Pode a mera digitalização contribuir para esse desidrato? Não. Apenas o consegue se se mostrar mais fiável, mais rápida, oferecer uma maior anonimidade, for mais eficiente e mais barata.
O que aconteceu? O Ministro implementou um projeto que se tem revelado mais lento (as datas estabelecidas tiveram de ser adiadas várias vezes), mais complicado, menos anónimo (alunos receberam testes com folhas de resposta de outros alunos), nemos fiável (notas em suspenso, aumento do número de reapreciações pedidas pelos pais), menos eficiente (implicou trabalho ao sábado, ao domingo e muitas horas extraordinárias) e, provavelmente muito mais caro. Se isto não é a incompetência como se define então esta singela e dúbia palavra?
De onde advém todo este erro colossal. Da inversão de fins e meios. Para o Ministro o fim passou a ser a digitalização e, nesse sentido, chegado ao fim o processo clamou vitória. Conseguira o que queria: a digitalização. Do ponto de vista do interesse nacional, do interesse dos alunos, do interesse dos professores, do interesse da imagem do país, foi uma terrível derrota, um vergonhoso falhanço. Substituiu-se um sistema que funcionava por outro que não funciona.
Como substituir a carroça por um carro sem motor. Se o fim for mostrar a posse de um carro está tudo bem, mas se o fim for uma deslocação mais rápida e segura, obviamente, não funciona.
Em todas as atividades o binómio “tentativa e erro” é imprescindível para melhorar o desempenho e implementar a inovação. Mas para isso existem os testes, os pilotos, que devem ser feitos em ambientes controlados antes de se lançarem produtos/processos no mercado. Novas cirurgias e fármacos são testados primeiro em animais, depois, de forma muito restrita e controlada, em voluntários e só depois prescrita à generalidade dos doentes. O mesmo se passa com todos os produtos e processos inovadores. Para um ministro que é investigador não perceber a fórmula secular, ensaiada e aprovada, da tentativa e erro em ambiente seguro e limitado torna-se mais grave e prova de maior um tipo especial de competência – essa palavra ainda mais dúbia.
Imaginemos por um momento alguém que à frente de uma companhia de construção de aviões colocasse no mercado um novo avião pouco ou nada testado. Que aconteceria? Já estaria preso a esta hora.
O ministro, contudo, não está só. A tendência para a tomada de decisões contraproducentes com base na confusão entre fins e meios está muito espalhada em Portugal quer no mundo empresarial quer na esfera política. Constituiu mesmo uma das principais causas do nosso atraso.
Veja-se a absurda aposta no Turismo (quando já tínhamos o exemplo da Madeira, uma das regiões mais pobres do país e que vive em grande parte dependente do turismo) que implicou um aumento da população por via da imigração, uma redução da produtividade, ao aumento das rendas, a emigração da mão-de-obra nacional mais qualificada e a diminuição do PIB per capita do país. Tudo resultados não pretendidos e completamente contraproducentes do ponto de vista nacional. Não ligar à realidade, não aprender com a experiência e repetir os erros aqui radica outra causa do atraso nacional. Em vez de tentativa e erro, temos tentativa erro e repetição do erro. Assim não vamos lá.
É urgente para estes decisores uma formação básica em introdução à estratégia, aproveitando, tantos e tão bons especialistas militares que temos nesta área. Mais: uma
passagem pelo Instituto de Defesa Nacional devia ser obrigatória antes da assunção de certos cargos. Eis uma forma como o investimento em defesa pode ser útil para Portugal.





