
Por: José Pires Manso
Membro Conselheiro nº2174
A eclosão da guerra envolvendo o Irão expôs, de forma particularmente clara, a fragilidade estrutural da economia global perante choques energéticos. O sistema económico mundial permanece dependente de um estreito com apenas algumas dezenas de quilómetros – Ormuz, um verdadeiro “single point of failure” por onde circula cerca de 20% do petróleo mundial e grande parte do gás natural liquefeito. A simples ameaça de perturbação nesta rota bastou para desencadear forte volatilidade: o petróleo subiu mais de 10%, o gás natural europeu e asiático mais de 50% e os mercados financeiros reagiram com nervosismo imediato.
As revisões das previsões económicas confirmam esta vulnerabilidade. O Goldman Sachs elevou as projeções para petróleo e gás, antecipando menor oferta e um prémio de risco geopolítico persistente. O J.P. Morgan estima que preços elevados até meados de 2026 reduziriam o crescimento global em 0,6 p.p. e aumentariam a inflação em mais de 1 p.p. Embora classificados como impactos “modestos”, estes efeitos tornam-se significativos num contexto de políticas monetárias restritivas e inflação já elevada.
A Europa surge como caso paradigmático: altamente dependente de energia importada, enfrenta perda de crescimento e pressões inflacionistas que limitam a ação do BCE. A Goldman Sachs aponta reduções de 0,1 a 0,2 p.p. no crescimento da zona euro, Reino Unido, Suécia e Suíça. A Noruega, exportadora de energia, constitui a exceção. Na Ásia, o impacto é ainda mais direto: a China, que absorve 80% do petróleo iraniano, terá de procurar alternativas num mercado pressionado, enquanto economias emergentes como Tailândia, Coreia ou Filipinas enfrentam deterioração dos termos de troca e maior vulnerabilidade cambial.
No Médio Oriente os efeitos ultrapassam o setor energético: turismo, imobiliário e serviços ressentem-se da suspensão de voos, da retração do consumo e do aumento da perceção de risco. O dólar reforça-se como moeda-refúgio, enquanto o euro sofre com a dependência europeia do gás natural e a deterioração dos termos de troca.
Portugal, embora não importe energia através do Estreito de Ormuz, não escapa ao impacto global. Pela forma globalizada como os preços dos produtos energéticos são formados, Portugal tem sido afetado. A subida dos preços energéticos repercute-se em todos os setores produtivos e em todo o território, dos grandes centros urbanos às regiões do interior, dependendo a intensidade do choque sobretudo da duração da crise.
Em síntese, o conflito no Irão revela uma contradição central da economia contemporânea: apesar de tecnologicamente avançado e globalmente integrado, o sistema económico mundial continua dependente de infraestruturas vulneráveis e de equilíbrios geopolíticos frágeis. Enquanto a dependência energética estrutural não for resolvida, choques como este continuarão a expor a fragilidade global.
Artigo publicado na coluna mensal “Economia na Ordem” do Jornal Vida Económica.





