
Por: João Grazina Santos
Membro Efetivo nº16897
Enquanto economista, olhar para o segundo semestre de 2026 é como navegar
num mar de incertezas geopolíticas com uma bússola que, apesar de fiável,
enfrenta forças externas imprevisíveis. A economia portuguesa tem demonstrado
uma resiliência notável, mas os próximos meses serão um verdadeiro teste de
stress à sua estrutura. Se tivesse de resumir a perspetiva numa frase,
seria: crescimento moderado, mas com riscos inflacionistas e externos que
exigem uma política cirúrgica e não generalista.
O Contexto Global: Entre a Inflação e a Recessão
O segundo semestre de 2026 está a ser fortemente condicionado pelo conflito
no Médio Oriente. Como o Fundo Monetário Internacional (FMI) já alertou em
abril, a economia global está “a caminhar para um cenário mais adverso” . A
incerteza não é apenas sobre a duração do conflito, mas sobre o seu impacto
direto nos preços da energia. Para um país como Portugal, historicamente
dependente de importações energéticas, este é o principal canal de contágio.
O FMI apresentou três cenários possíveis, e a realidade atual parece situar-se
algures entre o cenário de referência e o adverso. Isto significa que, ao contrário
do que se esperava no início do ano, os preços do petróleo deverão permanecer
elevados durante mais tempo. A confirmar-se um cenário de petróleo acima dos
100 dólares por barril de forma sustentada, a economia europeia — com a Zona
Euro a crescer uns meros 1.1% — enfrenta uma forte pressão.
O “Caso Português”: Crescimento que Desacelera, mas Não
Estagna
A pergunta central para o segundo semestre é se a procura interna aguenta o
choque externo. Os dados mais recentes do FMI e da OCDE permitem traçar dois
cenários base, que eu designaria por “Cenário de Gestão” e “Cenário de
Tempestade”:
1. O Cenário de Referência (Base): Assume que o choque energético é temporário
e que as disrupções nas cadeias de abastecimento não se agravam. Neste
contexto, o crescimento do PIB português para o ano como um todo deverá fixarse
ligeiramente abaixo dos 2%. A OCDE mantém uma previsão mais otimista
(2.2%), mas o indicador já foi calculado antes do pico das tensões. No segundo
semestre, a execução dos fundos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR)
ainda atuará como uma almofada.
2. O Cenário Adverso: Se o conflito perdurar e o petróleo se mantiver acima dos
100 dólares, o FMI estima um impacto negativo de 0.2 pontos percentuais no
crescimento e um aumento da inflação em 0.8 pontos percentuais. Neste caso, o
crescimento poderá escorregar para a casa dos 1.5%, como já antecipa o NECEP
da Universidade Católica. A minha leitura é que este cenário é agora o mais
provável para o segundo semestre, com uma estagnação muito provável no
terceiro trimestre.
A Ameaça Silenciosa: Inflação e Rendimento Disponível
O ponto que mais me preocupa não é tanto a queda nominal do PIB, mas a
pressão sobre o rendimento disponível das famílias. Os dados de março já
mostraram uma inflação homóloga de 2.7%, impulsionada pelo aumento de 5.8%
nos produtos energéticos. No segundo semestre, mesmo que o BCE mantenha
as taxas de juro inalteradas numa tentativa de “olhar através” do choque
energético, a verdade é que a subida dos preços dos combustíveis e dos bens
alimentares atua como um imposto regressivo sobre o consumo privado.
Este é um momento particularmente sensível para a política fiscal. O governo tem
conseguido manter uma trajetória de redução da dívida pública (projetada para
descer abaixo de 90% do PIB), mas enfrenta agora pressões para aliviar a carga
fiscal sobre os combustíveis. Como tenho defendido, subsidiar o consumo de
energia de forma generalizada é um erro crasso nesta fase: alivia a inflação no
curto prazo, mas destrói o sinal de preço necessário para ajustar a procura e
agrava o desequilíbrio das contas públicas. A recomendação do FMI é clara, e eu
subscrevo-a na íntegra: qualquer apoio deve ser temporário e direcionado às
famílias vulneráveis e às empresas viáveis de setores intensivos em energia.
O Paradoxo do Investimento: Refúgio e Habitação
Há um ponto que merece um parágrafo à parte: apesar da turbulência, Portugal
continua a ser visto como um porto seguro para o capital. A previsão de
valorização de 4.5% no mercado imobiliário prime de Lisboa é um sinal de que o
investimento estrangeiro continua a fluir. A posição geográfica atlântica, a
conectividade e os custos operacionais competitivos são ativos que protegem a
economia de uma fuga súbita de capitais.
No entanto, esta procura externa forte, combinada com uma oferta habitacional
estagnada, note-se a quebra de 7% nas vendas de cimento no final de 2025, cria
um desequilíbrio perigoso. O FMI foi muito direto na sua análise de maio de 2026:
a redução dos desequilíbrios no mercado imobiliário exige medidas do lado da
oferta, como a facilitação da construção e a penalização de imóveis devolutos.
Para o segundo semestre, espero um arrefecimento nas transações, mas não uma
correção significativa nos preços, o que continuará a pressionar a acessibilidade
à habitação para as famílias portuguesas.
Conclusão: Navegar à Vista
O segundo semestre de 2026 não trará uma recessão em Portugal, mas trará um
crescimento anémico e uma inflação desconfortável. O mercado de trabalho
continua robusto, com o emprego a funcionar como a última linha de defesa do
consumo. No entanto, o fim anunciado do PRR e a necessidade de consolidação
fiscal em 2027 retiram margem de manobra.
O maior risco é a erosão da confiança. Se a inflação se tornar persistente devido
a um choque energético prolongado, o BCE poderá ver-se forçado a adiar novos
cortes de juros. Por isso, a prioridade máxima do governo para este semestre
deve ser garantir a execução eficiente do investimento público e preservar
almofadas financeiras, resistindo à tentação de estímulos generalizados que
dariam conforto imediato, mas custariam caro no futuro próximo. A palavra de
ordem é cautela.





