
Por: René Cordeiro
Membro Efetivo nº56
O Mundo que temos? O Mundo que desejávamos utopicamente ter? Ou o Mundo que alguns procuram construir?
Perante as alternativas opto, sem hesitação, pelo mundo que temos. Recentrado. O que me conduz a outra escolha: o nacional, em prejuízo do supranacional. Recusando este, tenho o internacional que, etimologicamente, pressupõe aquele. Porque é na Nação a que pertenço — que se organiza politicamente em Estado para assegurar funções de soberania, e prover soluções para as necessidades da população territorialmente distribuída — onde residem os principais problemas que afligem os seus membros, onde encontro situações que tenho de enfrentar para elas encontrarem respostas no interesse dos seus cidadãos, porque o nosso esforço é aplicado no que nos aproxima, no que nos desenvolve — com esforço próprio —, e porque é nele mais fácil encontrar soluções de governo do que no âmbito supranacional.
Não porque neste âmbito não seja útil ter uma regulação que seja dirigida pela equidade na moderação dos interesses nacionais e das relações internacionais. Mas, como nos ensina a experiência, a História, essa utilidade não se tem verificado com aquela qualidade. Antes se tem verificado a prevalência do interesse do mais forte. Isto porque “hoje” o Ocidente pretende colocar mais ênfase na vertente supranacional, do que na nacional. É aquele interesse, é esta ênfase, que nos conduz à teoria, e à prática (efectiva ou potencial) de impérios. Por coerção, exemplo dos EUA (herdeiro do império britânico — que dele esperar se não que queira exceder o progenitor?) ou por “sedução”, caso da UE.
Finalmente, porque acredito que o foco determinante deve ser colocado no maior denominador comum entre os povos que a História nos identifica: o comércio. E, este, recomenda-nos a protecção e a promoção dos interesses da nação, na recusa do colonialismo, característica do imperialismo. É aquele que permite que duas partes sejam ganhadoras. Nunca a geopolítica.
Não entendo como se fica surpreendido com as imposições dos EUA sobre as nações, com ou sem Trump. Porque, pela doutrina Monroe, este Presidente, em 1817, buscou avisar os países europeus, ex-colonizadores do continente americano, que este passava a ser a sua “quinta”. E cerca de oitenta anos depois, T. Roosevelt transformou a doutrina em corolário: os EUA tinham o direito de intervir em qualquer parte do globo em que considerassem estarem em causa os seus interesses. Eram, também, o povo escolhido, conforme a afirmação que se atribui a John L. O’Sullivan, em 1837, (The American Empire, A.G. Hopkins) ”que os EUA tinham uma missão abençoada para com as nações do mundo”. (Seria injustiça não abrir aqui um parêntesis para recordar o exemplo do império francês de Napoleão: a França, metamorfoseou-se de república em império depois de ter decidido mudar o calendário gregoriano, substituir Deus pelo francês “ser superior” e levar coercivamente as suas ideias de libertação a todos os territórios e nações do continente europeu, aproveitando para nestas recrutar soldados para os seus exércitos de conquista, e promovendo o bloqueio dos portos continentais ao comércio inglês). E foram os EUA que promoveram a globalização — que viu pela primeira vez a sua definição no dicionário Webster nos anos 50 do séc. XX: fazer mundial, em âmbito e em aplicação —, transformada em híper-globalização a partir dos anos 90 com o advento da internet e o “triunfo” do neoliberalismo. Por isto há muito que defendo que a globalização/híper-globalização da Economia é-o pelo lado da Procura, tendo a Oferta se ajustado (deslocalizando) as suas operações — concepção, obtenção, distribuição/entrega do produto — assegurando àquela o conhecimento deste e assegurando a interacção com o utilizador/cliente. E são os mesmos EUA que, reconhecendo (porque não previram!) que a globalização, digo, a híper-globalização, iria impactar negativamente interesses da nação norte-americana, a procuram agora reverter. Creio ser útil este entendimento que defendo por clarificar as diferenças entre os comportamentos da Procura e da Oferta e os seus eventuais possíveis ajustamentos. A globalização nasceu do livre fluxo de bens e serviços, e produziu efeitos positivos graças à sua perspectiva de desenvolvimento das nações. Mas a mentalidade desenvolvimentista perde-se com a híper-globalização que nasce com a desregularização dos sistemas financeiros: decorre do neoliberalismo, que não é mais do que privilegiar em absoluto a liberdade dos mercados sobre a intervenção governamental, os incentivos financeiros sobre as culturas nacionais, o livre movimento dos fluxos financeiros de curto prazo, necessariamente com forte componente especulativa. Em resumo, o domínio das finanças sobre a actividade económica resultante da desregulação dos fluxos financeiros como norma global.
Daí, o “paradoxo da globalização” do economista Dani Rodrik (Oxford Univ. Press, 2012), quando nos explica o trilema politico fundamental da economia mundial: por que razão “mercados globais/híper-globalização, Estados-nação e democracia” não podem existir simultaneamente. A opção máxima possível é por dois dos dados. De que releva uma questão: que pressupostos queremos manter para nos guiar na nossa vida individual e colectiva num mundo caracterizado por complexidade, em que nos vendem facilidades que objectivam afastar-nos do esforço de crescimento próprio?
Como nos recorda novamente Rodrik (Shared Prosperity in a Fractured World, Princeton Univ. Press, 2025), o sucesso económico requer uma mistura criteriosa de liberalismo e de mentalidade desenvolvimentista retirando o actual foco no curto prazo, baseado na dívida. Ao ignorar esta lição, a híper-globalização conduz a falsas esperanças …lançando também as sementes de conflito com a mentalidade desenvolvimentista dos países bem-sucedidos. Esta mentalidade, de que a China é exemplo, recorda-me Keynes. A propósito, recorda-nos ainda RodriK que a “China (tal como anteriormente a Coreia do Sul e Taiwan) actuou na globalização pelas regras de Bretton Woods, em vez das resultantes da profunda integração do pós-1990”.
O foco no nacional não conduz a desordem global. Implica, sim, que a regulação global resulte da satisfação dos interesses nacionais — excluídas ambições de domínio territorial sobre estados constituídos — moderados pelas negociações internacionais: internações.
É por aquele maior denominador comum que tenho saudades da Associação Europeia de Comércio Livre. E porque gostaria que fôssemos membros da Comunidade Económica Europeia, mas não da União Europeia. Esta pretende colonizar as nações que a ela aderiram/aderem por decisão de governos, buscando soluções sedutoras para construção da união política. Aquela é, apenas, mercado comum.
Por tudo isto, Bretton Woods regularia (se fosse hoje possível) melhor a situação actual, no interesse das nações, do que Jamaica. Não foi por acaso que os EUA terminaram com aquela.




