O ovo e a galinha e a geração mais qualificada de sempre

Por: Jorge Fonseca de Almeida

Membro Conselheiro nº1083

A cartilha neoliberal e os principais patrões advogam que o sistema de ensino se deve moldar aos desejos das suas empresas. Um dos maiores empresários sediados em Portugal, Guy Villax, escreveu num capítulo de um livro publicado pelo ISCTE (Vozes por Portugal) que “O ensino primário, secundário, superior e politécnico tem de procurar ajustar, constantemente, o seu «produto» ao que o mercado procura”. Isto é a oferta (de trabalho) deve ajustar-se à procura (das empresas). Eis o “mercado” à portuguesa a funcionar! Uma das partes dita à outra, com o apoio do Estado, como tem de submeter-se/ajustar-se aos seus ditames.

E que procura o mercado de trabalho em Portugal? Trabalhadores dispostos a trabalhar longas horas, a receber salários baixos – de acordo com o Jornal de Negócios 66% dos trabalhadores portugueses ganhavam abaixo de 1.000 euros em 2023, e a manter uma relação de precariedade – mais de 30% dos assalariados são precários. O Turismo é um bom exemplo de um setor de sucesso na última década tendo expandido substancialmente com estes trabalhadores.

Que tipo de formação devem, então, ter as pessoas para aceitar tais condições de trabalho, exigidas pelo mercado? Que tipo de formação devem ter para se ajustarem ao que o mercado procura? Obviamente pouca ou nenhuma instrução, mesmo que por razões sociais (expectativa dos pais e da sociedade) ou civilizacionais (comparações internacionais) tenham de passar muitos anos no sistema de ensino. Nas escolas estabeleceu-se a erradicação do insucesso por via administrativa (alargando, assim, o insucesso de facto já que os jovens sabem que pouco ou nada precisam de fazer para passar os anos) e através da predominância dos Encarregados de Educação (que na maioria, iludidos com os diplomas ocos, querem que os filhos progridam mesmo sem aprender nada).

É isso mesmo que confirma o recente relatório da OCDE sobre a literacia, a numeracia e a capacidade de resolver problemas de adultos (dos 25 aos 65 anos) (Survey of Adult Skills 2023 consultável em https://www.oecd.org/en/publications/2024/12/do-adults-have-the-skills-they-need-to-thrive-in-a-changing-world_4396f1f1.html). No conjunto dos 32 países estudados Portugal surge em penúltimo lugar em literacia (capacidade de ler e compreender o que se lê). E em numeracia (capacidade de entender as operações matemáticas básicas) o panorama é o mesmo, quedamo-nos pelo penúltimo. Na resolução de problemas Portugal sobe um pouco e deixa atrás de si 4 países, o que não é brilhante para quem se imagina “desenrascado”.

Pior, mais de 40% dos adultos portugueses ficaram baixo do nível 2 (quedando-se pelo nível 1 ou abaixo do nível 1). Quase metade da força de trabalho é efetivamente incapaz de completar com sucesso as tarefas mais simples. E menos de 5% atingiu o nível 5. E se há países em que existe uma clivagem entre os melhores e os piores, este não é o caso de Portugal em que essa diferença é media. Ou seja, são todos fracos. Mau. Muito triste.

Eis a geração mais bem preparada de sempre: analfabeta funcional e com dificuldade em resolver pequenos problemas práticos (como estabelecer a melhor rota para fazer as compras). Mas completamente ajustada ao que o “mercado” de trabalho português pretende! Os governos ouviram os patrões e apesar do aumento dos anos de escolaridade e dos diplomas que os jovens obtêm a ignorância é gritante e persistente. Estão prontos para a precaridade, as longas horas e os baixos salários. Estão preparados para o Pacote Laboral.

Estes números da literacia, da numeracia e da resolução de problemas, são, obviamente, consistentes com os níveis de produtividade das empresas portuguesas – um dos mais baixos da União Europeia – 73% da produtividade média da União Europeia (da média não da mais alta). Patrões e empregados com baixas capacidades não geram valor acrescentado substancial.

Mas só o sabemos porque de fora no-lo dizem, porque somos incapazes de avaliar por nós próprios os resultados do sistema de ensino, porque internamente enchemos o peito de orgulho e anunciamos aos sete ventos quão bom é o nosso ensino e quão bem preparados estão os nossos jovens. Presunção e água benta que não resistem ao escrutínio internacional independente. Ilusões que as gerações mais novas pagarão com pobreza e emigração.

O erro está, obviamente, em ajustar o ensino às necessidades da procura de mão-de-obra, i.e. aos ditames das empresas. Com a manutenção da ignorância essas necessidades não vão mudar estruturalmente. Para que mudem é necessário, entre outras coisas, um aumento efetivo da instrução (real) da força-de-trabalho. São as pessoas com melhor educação que podem impulsionar a mudança do mercado de trabalho.

E isso é tão mais correto quando em torno de metade da mão-de-obra trabalha em empresas com menos de 10 pessoas e mais de 90% das empresas são desse tipo. Nestas empresas um único trabalhador instruído pode ter um forte impacto. E as grandes empresas estrangeiras não serão, como não têm sido, tábua de salvação. Conhecedoras do perfil do trabalhador português, através de relatórios como este, não trarão atividades de forte valor-acrescentado para um país que o não sabe acrescentar.

Não tratamos do famoso dilema do ovo e da galinha. Aqui sabemos que o ovo (a educação) surge primeiro que a galinha (a procura de mão-obra qualificada pelas empresas). Pena que os governantes continuem a implementar políticas neoliberais, baseadas na tríade a flexibilizar horários, precarizar, empobrecer, contraproducentes para o desenvolvimento do país.

Exigem-se mudanças. A alternância no erro não ajuda. O que precisamos é de alternativas.

Uma resposta

  1. Lamentavelmente estamos a permitir que o nosso ensino seja um embuste…
    As alternativas são tão óbvias que até chegam a ser estranhas. Entao, se o ensino português estava considerado como uns dos melhores, para quê “mexer na base”? Todos sabem que em equipa vencedora não se deve mexer…
    Ora, temos uma taxa de reprovação nula, ou quase, até ao 9º ano – ensinamentos tirados daqui:
    – premeia-se quem não sabe, quem não trabalha e quem não se esforça.
    – banaliza-se quem se esforça e trabalha
    – ensina-se toda uma (neste caso várias) gerações a não ter consequências
    – o “normal” é ser baldas, mal educado e desrespeitador em sala de aulas. Quem respeita, é educado e trabalha é tido como “burro”…
    – importa é dar por dar, não importa dar para se saber. Um exemplo prático: como se dá a área sem ter dado as medidas de comprimento na perfeição? Como se resolvem problemas práticos se na escola não são levados a raciocinar? Como é que se quer que saibam fazer contas se usam sempre a calculadora?
    – como interpretar se muitos alunos passam de ciclo (já não falo só de ano) sem saber ler fluentemente!?

    Concordando consigo, Dr Jorge Fonseca de Almeida, enquanto continuarmos com os valores base de bem estar e respeitar os demais invertidos, o ensino não pode estar a ser bom. Quando se permite que as exceções se tornem o normal, quando um professor não é defendido em prol da falta de respeito do aluno, enquanto não se mostrar/ensinar aos alunos que só tem direitos quem cumpre o seu dever (independentemente da esfera em que se encontra: escolar, desportiva, doméstica, etc), temo que a mão de obra que vai chegar ao mercado de trabalho nos levará a um caminho de rutura e crise económica e social aguda.

    É uma análise que carece de medidas rápidas/urgentes dos nossos dirigentes, da nossa sociedade porque, para todos os efeitos, os Encarregados de Educação estão a fazer um trabalho, também, duvidoso, pois somos todos responsáveis pelo desenvolvimento das gerações futuras.

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