O mito das “gorduras” no Serviço Nacional de Saúde (SNS)

Por: Marco Dias

Membro Sénior nº15058

No debate público e político, é frequente surgir a ideia de que o SNS é um “sorvedouro” de dinheiros públicos. Este artigo pretende desmistificar essa perceção, apresentando dados concretos sobre a eficiência e a estrutura de custos do sistema.

Envelhecimento da população e impacto nos cuidados de saúde

Segundo dados da Pordata, em 2024 Portugal contava com mais de 2,6 milhões de utentes com idade superior a 65 anos. Esta faixa etária concentra maior necessidade de cuidados médicos e consumo de medicamentos, o que naturalmente aumenta a despesa.

 

Indicadores de eficiência do SNS

Consultas hospitalares

  • 2023: cerca de 13,3 milhões de consultas de especialidade hospitalar (+3,9% face a 2022).
  • 2024: aumento adicional de +5,6% em relação a 2023.

Cirurgias realizadas

  • 2023: 715.068 cirurgias.
  • 2024: 891.286 cirurgias (+24,6%, ou +176.218 face a 2023).

Estes números evidenciam um aumento significativo na atividade assistencial, sinalizando maior capacidade de resposta.

Fonte: Conselho das Finanças Públicas (CFP)

 

Estrutura da despesa do SNS

De acordo com o Conselho das Finanças Públicas (CFP), a maior rúbrica é a aquisição de bens e serviços, representando 85,9% do total, com forte dependência do setor privado:

  • Produtos vendidos em farmácias: 1.813,2 M€
  • Aquisição de bens (inventários): 3.075,0 M€
  • Parcerias público-privadas (PPP): 199,2 M€
  • Meios complementares de diagnóstico e terapêutica (MCDT): 1.916,1 M€
  • Prestadores de serviço externos: 230,97 M€

Somando estas componentes, obtém-se cerca de 7.234,5 M€, o que corresponde a ~85,9% da despesa com aquisição de bens e serviços.

A segunda maior rúbrica são as despesas com pessoal, que totalizam 4.220,6 M€. Dada a escassez de recursos humanos (médicos, enfermeiros e auxiliares) e os salários pouco competitivos face ao setor privado, não é realista reduzir esta componente.

 

Onde cortar sem comprometer a qualidade?

Especialistas em economia da saúde não recomendam cortes lineares, mas sim medidas estruturais para aumentar a eficiência:

  1. Compras centralizadas e negociação de preços
    • Reduzir custos com medicamentos e dispositivos através de contratos mais vantajosos.
  2. Contratualização baseada em resultados (Value-Based Healthcare)
    • Pagar por qualidade e desfechos clínicos, em vez de volume de atos.
  3. Digitalização e interoperabilidade
    • Apostar em telemedicina, sistemas integrados e inteligência artificial para reduzir duplicações e custos administrativos.
  4. Eficiência hospitalar
    • Partilha de boas práticas, monitorização rigorosa e indicadores de desempenho.
  5. Governança e transparência
    • Reforçar auditorias e controlo para evitar desperdícios, má gestão e fraude

 

Conclusão

O SNS não é um sistema ineficiente por natureza, mas enfrenta desafios estruturais. A solução não passa por cortes indiscriminados, mas por modernização, gestão baseada em valor e maior integração tecnológica, garantindo sustentabilidade sem comprometer a qualidade dos cuidados prestados à população.

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