Investimento e Risco País – a anunciada guerra na Europa

Por: Jorge Fonseca de Almeida

Membro Conselheiro nº1083

O Sudão encontra-se mergulhado numa infindável guerra civil com os dois campos a controlar partes variáveis do país (de acordo com avanços e recuos da frente), a Ucrânia tornou-se palco de batalha entre a NATO e a Rússia, todos os dias bombardeada, todos os dias destruídas infraestruturas críticas que permitem à economia funcionar. Em qualquer destas regiões o risco do país é extraordinariamente elevado. Os grandes investidores, obviamente, afastam-se, ou se incentivados pelos seus Estados apenas o fazem com extensas garantias (basicamente transferindo o risco para as instituições públicas do país de origem).

Por isso todos os países, mesmo os mais periclitantes, procuram apresentar-se como estáveis, pacíficos e longe de confrontações, para assim garantirem o afluxo do investimento estrangeiro e nacional. É, pois, surpreendente a atitude da União Europeia (UE).

Os dirigentes da UE tem vindo dos seus púlpitos políticos a proclamar urbi et orbi que se preparam para entrar em guerra com a Rússia nos próximos anos. Uns referem dois anos, outros são mais flexíveis afirmando que poderá ser mais cedo, mas quase todos o repetem. Nesta onda o primeiro-ministro português anunciou recentemente a sua vontade de enviar militares portugueses para a Ucrânia (onde já morreram vários mercenários portugueses).A mensagem é clara. Vai haver uma guerra no território da União Europeia. Uma guerra provavelmente nuclear. Eis as notícias que nos trazem: morte e destruição iminentes.

Que reação será de esperar de investidores internacionais / nacionais racionais? Um aumento do investimento ou uma retirada planeada? A perceção de oportunidades de mercado ou a procura de alternativas – que se apresentam abundantes em tantas outras geografias a começar pelo território norte-americano, mas estendendo-se à China e a muitos países da Ásia e da Oceânia.

Quem racionalmente se disporá a aplicar os seus capitais num território que, com muita probabilidade, será em breve palco de um confronto militar devastador?

O caso da habitação é bem paradigmático. Apesar das necessidades do mercado português e europeu, apesar dos generosos subsídios estatais, apesar das enormes isenções fiscais, o investimento é muito limitado. Ninguém quer agarrar esta oportunidade? Pois não. O risco de guerra é tão grande e o património imobiliário um dos primeiros a ser destruído.

Que efeitos se espera destas dramáticas declarações e correspondentes ações? Dizer a verdade, preparando as sociedades para o confronto? Levar as opiniões públicas nacionais a aceitar o aumento de verbas para os gastos militares em detrimento do estado social? Afastar os investidores internacionais? Paralisar o investimento privado nacional? Promover a emigração das elites para locais mais seguros? Tornar o investimento totalmente público ou pago/seguro pelo Estado? Canalizar o investimento apenas para a indústria de armamento?

Na verdade estas afirmações públicas são mais uma acha para a estagnação / recessão económica que assola a UE e a torna cada vez mais irrelevante no palco internacional. A União não tem hoje ao leme dirigentes capazes de definir uma visão pacífica e prospera do futuro. O desnorte apoderou-se do governo da UE.

Paul Sweezy e Paul Baran, dois notáveis economistas do século XX, na sua obra Capitalismo Monopolista, sugeriram que o investimento em equipamentos militares é uma forma de absorver os capitais excedentários que não têm aplicação produtiva procurando, dessa forma, impedir a estagnação. É um retrato fiel do que se passa na UE. Os capitais receosos da perspetiva de guerra tornam-se na melhor das hipóteses ociosos, parados ou na pior expatriam-se para locais mais acolhedores. O investimento em equipamento militar, que tem como comprador único e seguro o aparelho militar do Estado, é um potencial porto de abrigo para esses capitais.

Infelizmente não é o suficiente para evitar a estagnação e o atraso, quando os competidores estão apostados na economia real, no aumento da produtividade via uso de novas tecnologias, na expansão dos mercados, no controlo das fontes de energia, no esforço de desenvolvimento científico. O investimento militar, nestas circunstâncias, é um fator de estagnação e de aumento do fosso de desenvolvimento científico (veja-se a incapacidade da EU de explorar as novas tecnologias, desde os carros elétricos à Inteligência Artificial, da biotecnologia à robótica, etc., etc.), social e económico.

Portugal está a especializar-se na indústria do turismo. Uma indústria que exige paz na UE. Quem viaja para uma zona de guerra, arriscando-se a ser atingido por um drone, uma bomba guiada, ou mesmo por uma bomba atómica quando admira o Castelo de São Jorge ou come umas sardinhas na Mouraria? Quem procura as estâncias balneares de Odessa no mar Negro? Quantos desejam visitar as extraordinárias pirâmides de Méroe no Sudão? Obviamente ninguém. A perspetiva de envio de tropas para a Ucrânia é um tiro no porta-aviões do turismo.

Portugal depende igualmente da imigração. Quem quer imigrar para um país em guerra? Quantos rumam à Ucrânia em busca de uma vida melhor? Quantos procuram o Sudão para passar os anos da reforma e aproveitar melhor as diferenças de níveis de vida? Obviamente poucos, excluindo os mercenários que fazem destes países um local de trabalho. Desejarão os brasileiros ficar? Ou os bangladenses? A guerra estreitará os fluxos migratórios de entrada e alargará os de saída.

Portugal deve refletir se deve procurar um caminho fora da UE, como o fez o Reino Unido ou a Noruega, ou se deseja um longo período de décadas de empobrecimento, morte, despovoamento e destruição.

O interesse nacional deve ser colocado acima de peias ideológicas fúteis.

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