O caso europeu ilustra bem esta dificuldade. O endurecimento monetário procura conter a inflação e preservar credibilidade, mas penaliza o investimento e o crescimento, com efeitos potenciais sobre a produtividade. E é precisamente a produtividade que sustenta a competitividade e permite a progressão salarial.

Ao mesmo tempo, a margem de atuação europeia é estruturalmente inferior à dos Estados Unidos. Enquanto a Fed influencia o ciclo financeiro global, o BCE opera num contexto de dependência externa e de fragmentação interna. A ausência de uma verdadeira união financeira e orçamental limita ainda mais a sua capacidade de resposta – aspetos sobejamente reconhecidos nos relatórios Letta e Draghi.

O trilema continua a oferecer um quadro de análise, mas o dilema revela os limites da autonomia monetária num mundo globalizado. E o quadrilema regista uma tensão mais abrangente: a dificuldade de conciliar estabilidade macroeconómica, competitividade, autonomia e progressão de rendimentos. A conclusão é óbvia: a verdadeira margem de atuação desloca‑se para as políticas estruturais. Esta deslocação não elimina as tensões entre objetivos, mas permite torná-las mais geríveis.

A divergência recente entre BCE e Fed não é, assim, apenas um episódio de política monetária. É a expressão de uma realidade mais profunda: numa economia global integrada, a autonomia é sempre relativa e estruturalmente assimétrica. É nesse quadro que a Europa terá de reequacionar a sua estratégia.

In Jornal Económico – 26 de junho