A Encruzilhada Global de Portugal: Da Periferia Turística ao Centro da Nova Geopolítica Energética

Por: João Grazina Santos

Membro Efetivo nº16897

A economia portuguesa revela, em 2026, uma aparente solidez que contrasta com a fragilidade do contexto internacional. As projeções apontam para um crescimento de 1,8% a 2,0%, superando a média da Zona Euro, prevista em 0,9%. Contudo, como economistas, é nosso dever inquirir a natureza deste crescimento. A nossa “resiliência” está a ser posta à prova por um choque geopolítico que, partindo do Médio Oriente, expõe de forma crua as vulnerabilidades estruturais do nosso modelo de desenvolvimento.

A crise desencadeada pelo conflito no Estreito de Ormuz serve como um divisor de águas. O Banco de Portugal, no seu Boletim Económico de março, já havia revisado em baixa as previsões de crescimento para 2026 em 0,5 pontos percentuais, um movimento diretamente atribuível à escalada das tensões geopolíticas. Este não é um choque exógeno distante; é um sismo com epicentro na nossa dependência energética e na nossa especialização produtiva. Portugal, com a sua elevada dependência energética externa, vê-se exposto a preços elevados da energia, o que alimenta a inflação e penaliza o crescimento económico.

Este é o primeiro e mais evidente elo da nossa cadeia de vulnerabilidades. A subida de 48,9% no preço do petróleo em euros, registada após o ataque ao Irão, é um dado que deve fazer soar todos os alarmes. As suas consequências são múltiplas: reduz o poder de compra das famílias, aumenta os custos de produção para as empresas e, crucialmente, ameaça o nosso principal motor de crescimento, o turismo. A dependência do turismo internacional, que nos tornou resilientes, revela-se agora como um calcanhar de Aquiles. Uma eventual escassez de jet fuel ou a mera redução de voos teria um impacto desproporcional nas nossas receitas de exportação de serviços, no emprego e nas contas públicas. Portugal, como salienta a KPMG, figura entre os países europeus mais vulneráveis a uma perturbação no turismo internacional. Este é o paradoxo da nossa resiliência: o que nos impulsiona é também o que nos fragiliza.

Mas o choque energético é apenas a face mais visível de uma transformação mais profunda. A geopolítica regressou ao centro da economia, e o mundo está a reconfigurar as suas dependências. A Europa procura desesperadamente reduzir a sua vulnerabilidade externa, garantir o acesso a matérias-primas críticas e reforçar a sua segurança energética. É neste novo tabuleiro que Portugal pode encontrar uma oportunidade estratégica ímpar.

Por um lado, a nossa posição geográfica e os laços históricos com o Mercosul posicionam-nos como uma potencial “ponte” entre a Europa e a América do Sul,

uma região que detém recursos como o lítio, o gás e as terras raras, essenciais para a transição energética e a economia do futuro. O acordo UE-Mercosul, mesmo com efeitos graduais, é um sinal claro dessa nova dinâmica.

Por outro lado, a nossa crescente capacidade de produção de energia renovável não é apenas um feito ambiental; é uma vantagem económica e estratégica de primeira ordem. Numa era em que a “segurança energética” equivale a “soberania económica”, a capacidade de gerar eletricidade de forma estável, previsível e sustentável torna-se um fator crítico de atratividade para investimentos de ponta. O relatório da Agência Internacional de Energia, ao destacar que a disponibilidade de eletricidade competitiva será um fator determinante para a liderança na próxima fase da economia digital, confirma esta tese. Grandes investimentos em data centers, inteligência artificial e infraestruturas digitais estão já a olhar para o mercado português com atenção. Estamos a caminho de trocar a dependência de combustíveis fósseis por uma dependência de eletricidade, redes e capacidade tecnológica, e Portugal tem condições naturais para se afirmar neste novo mapa.

Esta oportunidade, contudo, não se materializará por si só. A atual fase de crescimento está ancorada no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), que terá um fim. A prova de fogo será a nossa capacidade de, após este impulso, sustentar o crescimento através de ganhos de produtividade, eficiência e qualificação dos recursos humanos. Oportunidade existe. A questão é se teremos a visão estratégica e a capacidade de execução para a aproveitar. Precisamos de um debate sério sobre o nosso posicionamento global, que transcenda a gestão da conjuntura e se centre na transformação do perfil de especialização da nossa economia, deixando de ser um mero destino turístico para assumirmos um papel central na nova geopolítica energética e digital.

O desafio está lançado: ou nos reinventamos como um ator relevante na nova ordem global, ou permaneceremos reféns da nossa dependência, sujeitos às vicissitudes de um mundo em turbulência. É tempo de escolher.

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