
Por: António Covas
Membro Efetivo nº638
Não há como escapar ao determinismo tecnológico em plena operação e, por isso, as várias dimensões da nova economia política (NEP) vamos encontrá-las ao longo da cadeia básica e fundamental constituída por eletricidade, computação e inteligência artificial. No plano mais institucionalista vamos encontrar outra triangulação fundamental que articula plataformas, mercados e instituições. Estas duas triangulações desenvolvem hiperligações muito importantes, por exemplo, as interfaces entre protocolos algorítmicos e modelos de linguagem da IA, nos mercados as ligações entre cadeias logísticas e marketplaces, nas instituições uma cooperação mais estreita entre governação pública e as organizações da sociedade civil em linha com uma aplicação mais efetiva do princípio de subsidiariedade e da responsabilidade comum partilhada. Estas duas triangulações constituintes estarão sempre presentes nas dimensões mais estruturantes da NEP do século XXI. Vejamos, então, as triangulações principais da NEP.
A transição energética está em curso e o mix será uma combinação de energia convencional de origem fóssil, de energia nuclear para fins civis e de energia renovável de várias origens. Doravante, a rede energética e a rede elétrica serão consideradas uma infraestrutura crítica que a NEP deverá proteger em permanência.
Uma das aplicações fundamentais das redes referidas anteriormente, por exemplo, os sistemas de informação geográfica, as câmaras de vigilância e os veículos elétricos autónomos acabarão, tarde ou cedo, por reconfigurar toda a mobilidade urbana, a arquitetura e a paisagem urbanas, bem como o conceito de espaço público à luz dos novos critérios de sustentabilidade e qualidade ambiental.
Um dos aspetos fundamentais da NEP tem a ver com a triangulação virtuosa entre crescimento natural da população, fluxos migratórios e as várias dinâmicas de formação sociofamiliar. Está em jogo a gestão positiva e utilitária das inúmeras modalidades do fator trabalho na NEP.
Outro dos aspetos fundamentais da NEP é a triangulação em redor do conceito de soberania do Estado-nação à luz dos determinismos tecnológico e institucional. Estamos a falar aqui das principais infraestruturas críticas do Estado-nação do século XXI, a saber, a defesa, a segurança e a proteção civil. O uso múltiplo destas infraestruturas e os seus impactos transversais transformam-nos em fatores nucleares de paz e prosperidade.
Estamos aqui perante a coluna vertebral da NEP em toda a sua extensão. Está em causa o conceito e a prática de soberania tecnológica e a gama imensa de arranjos produtivos regionais, nacionais, europeus e internacionais. Quais são os nossos recursos em matéria de materiais raros, energias renováveis, centros de dados, capacidade computacional avançada, automação e IA? A gestão da cadeia de valor nacional da IA é o grande desafio da NEP durante o século XXI.
A digitalização, a automação, a robótica, a IA, alteram substancialmente o universo empresarial, isto é, as noções de empresa e empreendimento, de plataforma, agenda comum e parceria, de bens de mercado e de bens de uso múltiplo, de logística e segurança globais. A estrutura de incentivos públicos da NEP deve levar em linha de conta os custos de contexto deste novo universo empresarial.
A digitalização, automação, robótica e IA alteram substancialmente a estrutura, o funcionamento e a dinâmica do mercado de trabalho que se alongará do trabalho flexível, qualificado e bem remunerado até ao trabalho precário, quantificado e mal remunerado. Assistiremos a um aumento do trabalho independente e criativo, a uma quebra da cobertura e efetividade sindicais, mas, também, a uma NEP mais imaginativa em matéria de Estado Providência, fiscalidade especifica para a cadeia de valor da automação, robótica e IA e uma nova economia para a provisão dos bens comuns colaborativos.
Na área da moeda e finanças vamos assistir a uma rápida desmaterialização, desinstitucionalização e descentralização da política monetária e financeira. Da moeda dos Bancos Centrais até à blockchain e moedas virtuais com passagem pelas fintech e os grandes fundos, a NEP irá substituir progressivamente os instrumentos convencionais de política monetária e financeira por uma política regulatória mais distribuída e sofisticada.
A cadeia de valor da economia criativa – ciência e tecnologia, arte e cultura – onde o valor precede o preço, busca um compromisso entre a soberania energética e tecnológica traduzida em investigação, desenvolvimento e ensino superior nas áreas CTEM (ciências, tecnologias, engenharia e matemática), por um lado, e arte, cultura e ensino das humanidades, por outro. Todavia, o risco de uma assimetria escalena nesta triangulação é bem real.
Nesta última triangulação está em causa a defesa, mas, também, a nova arquitetura do espaço público na era da automação, da computação avançada e dos modelos de IA. Estamos a pôr à prova, mais uma vez, a teoria do agir comunicacional de Jurgen Habermas, mergulhada, desta vez, numa ordem caótica de elementos democráticos, plutocráticos e autocráticos. Neste contexto, a NEP e a sociedade civil tratarão de reinventar a governança pública e a arte da política democrática.
Notas Finais
A automação, a computação avançada e a inteligência artificial (IA) não são apenas uma revolução tecnológica. Estão a transformar a economia e a estimular novos desafios para governos, famílias, empresas e reguladores. A infraestrutura necessária para suportar toda a nova economia tecno-digital tornou-se um dos maiores desafios desta década. Se há alguns anos a IA era vista sobretudo como uma revolução de software, atualmente, a discussão está centrada na infraestrutura. A capacidade de produzir, transportar e consumir energia tornou-se um dos principais fatores de competitividade da economia digital. Do mesmo modo, a procura crescente por terrenos para centros de dados, essenciais para garantir capacidade de computação e responder às exigências dos grandes modelos de IA e dos seus agentes autónomos, estão hoje no centro da competição entre países que procuram atrair investimento e posicionar-se nesta nova cadeia de valor. É precisamente esse o papel que a Start Campus procura desempenhar com o Sines Data Campus, um projeto com capacidade prevista de 1,2 GW, concebido para suportar serviços de cloud, computação de alto desempenho e inteligência artificial.





