A marcha lenta dos camiões e a economia real perante o choque dos combustíveis

Por: Cristiano Vieira Augusto

Membro Sénior nº12498

Há momentos em que a teoria económica precisa de ser confrontada com a economia real.

Na passada sexta-feira, centenas de camiões de empresas de terraplanagem, movimentação de terras, extração de inertes, demolições e com transportes associados, saíram para a estrada numa marcha lenta entre Paredes e Coimbra. Não foi apenas uma manifestação contra o preço do gasóleo, foi também a expressão de um sector que se considera excluído dos mecanismos de apoio entretanto criados para outros utilizadores intensivos de combustível.

O momento não podia ser mais oportuno para discutir uma afirmação recente do ministro da Economia. Questionado sobre o aumento dos combustíveis, o ministro afirmou que “quanto menos combustíveis forem consumidos, mais isso facilita o abaixamento dos preços”, defendendo que famílias e empresas devem fazer tudo o que puderem para reduzir o consumo.

A afirmação é correta enquanto princípio geral: num mercado concorrencial, uma redução da procura, mantendo tudo o resto constante, exerce uma pressão de descida no preço. O problema está em saber o que acontece quando a procura é pouco elástica e o choque que originou a subida está sobretudo do lado da oferta.

É precisamente aqui que a realidade económica se torna mais complexa.

O atual aumento dos combustíveis ocorre num contexto internacional de perturbação da oferta energética, associado à crise no Médio Oriente e aos constrangimentos nos abastecimentos.

Nestas circunstâncias, dizer a uma família para consumir menos pode ser uma recomendação racional sempre que exista uma alternativa. Mas a questão é diferente quando falamos de uma empresa cuja atividade económica depende diretamente do combustível.

Uma empresa de terraplanagens não pode reduzir a procura dos seus próprios serviços para fazer baixar o preço do combustível, muito menos fazer teletrabalho como também já se referiu. Se reduzir a sua atividade, reduz produção, emprego e valor económico e não altera o preço internacional do petróleo.

Esta distinção é particularmente importante porque a procura de combustível para muitas atividades produtivas é inelástica no curto prazo. O combustível não é um bem de consumo final facilmente substituível nestes setores: é um fator de produção.

O Governo criou mecanismos específicos para transportadores rodoviários de mercadorias por conta de outrem e transporte público de passageiros (onde inclui os táxis). Mais recentemente permite ainda compensar até 70% dos custos extraordinários com combustíveis suportados neste último trimestre de 2026.

A questão colocada pelas empresas de terraplanagem, extração de inertes e movimentação de terras é simples: por que razão uma empresa que consome milhares de litros de gasóleo para produzir e movimentar uma tonelada de terra ou de inertes deve ficar fora de mecanismos desenhados para mitigar precisamente o mesmo choque energético?

Uma parte significativa do consumo destas empresas ocorre não só em camiões, mas em escavadoras, pás carregadoras, dumpers, autobetoneiras e outras maquinarias pesadas. São equipamentos que não transportam mercadorias por conta de outrem, mas que são indispensáveis à produção.

Se qualquer uma destas empresas tiver um consumo de 100.000 litros de gasóleo por mês e num mero exercício ilustrativo, se fossem aplicados cumulativamente a estas empresas o que já existem noutros sectores, a poupança seria de 36.610 euros mensais.

Não é só este número que importa. Importa o princípio que ele revela: num sector intensivo em combustível, pequenas diferenças por litro transformam-se rapidamente em dezenas ou centenas de milhares de euros por ano.

É por isso que, para além dos apoios temporários, faria sentido discutir mecanismos de revisão de preços mais rápidos para atividades fortemente dependentes de combustíveis.

E talvez esta seja a principal lição da marcha lenta.

Os empresários não estão a dizer que a procura e a oferta deixaram de existir. Estão a dizer algo diferente: quando o combustível é um fator de produção essencial, não existe uma “procura” que possa simplesmente desaparecer sem que desapareça também a atividade económica que dela depende.

Uma empresa pode renovar camiões, renovar máquinas, otimizar percursos e melhorar a eficiência. Deve faze-lo. Mas há uma diferença entre reduzir desperdício e reduzir produção.

A primeira é eficiência económica. A segunda pode ser simplesmente o fim da empresa.

É essa diferença que uma política pública desenhada para responder a um choque energético deve saber distinguir.

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