A caminho de uma nova ideologia?

Por: René Cordeiro

Membro Efetivo nº56

“A internet,” escrevi em 2021, “como instrumento das redes sociais actuais, tem a característica de dispersão que conhecemos. Qualquer pessoa con­tacta com outra qualquer para transmitir o que entende e, sendo razoavelmente conhecedora, mistura tecnologias, cria aplicações e não tem controlo. Como a sua própria designação indicia, as redes sociais (porque interessam aos humanos) consistem em nós ― de origem e destino de informação ― e de eixos, ligações, que a transportam utilizando as tecnologias que em cada momento estejam disponíveis e sejam ade­quadas. Porque existem desde sempre. Só que, antes, não dispunham de internet, que não nasceu de um plano: …

Ganhou a capacidade de fácil circulação e de partilha de ficheiros a partir da web, criada por Tim Berners-Lee em 1989 e, a partir de cerca de 1994, adquiriu capacidade comercial.

Encontramos uma limitada similitude (por via da eficiência conseguida na impressão, promovendo a difusão) entre o nosso tempo e o período (revolucionário) que se seguiu ao advento da (im)prensa. Como esta, as actuais tecnologias de informação transformaram não só o mercado – transformando a operação comercial ― mas também a esfera pública ― transformando a operação política.”

Em 2025, escrevi “Como é possível comparar a «Revolução Industrial» à «Revolução Digital»?! A máquina a vapor, e as inovações que se lhe seguiram, produziram eficiências nas operações em que eram aplicáveis (para que tinham sido concebidas), libertando o Homem do esforço físico decorrente do exercício dessas operações. Creio que estas inovações satisfariam plenamente a essência do pensamento sociológico de Marx que consistia em a humanidade, como espécie biológica, ser capaz de se libertar através do esforço próprio, do trabalho e da inovação tecnológica. Utilizando o exemplo de um dos magnatas, e ícone, do digital ― Zuckerberg ― a sua invenção para estabelecer comunicação (vínculos) à distância (Facebook) resultou, conforme leio em Juan Villoro, das suas dificuldades de relacionamento com os colegas universitários, particularmente do sexo feminino. A minha interpretação das duas situações: a primeira, foi útil para o fabricante e para o utilizador ― o empregador/empregado; a segunda, foi útil, apenas, para o inventor e, eventualmente, para quem sofresse das mesmas limitações… Citando o mesmo autor: em 2017, Douglas Rushkoff ― que tinha sido o primeiro colunista de questões digitais no New York Times e autor de livros sobre os mesmos temas ― foi convidado a falar para cinco presidentes de corporações sobre os riscos e os efeitos da tecnologia que eles próprios tinham criado, aconselhando-os sobre como sobreviver num mundo pós-humano onde a inteligência artificial superasse o cérebro em destreza e em «neuroses».”

Entrámos, assim, na era em que todos temos acesso a qualquer informação, facilitamos o acesso à nossa informação, permitindo a sua extracção. Tudo se propaga, em forte aceleração promovida pelo desenvolvimento da tecnologia digital. O dígito, decorrente do conceito de «notação posicional» do matemático indiano Brahmagupta está, necessariamente, ligado ao algoritmo desenvolvido pelo persa al-Khwarrizmi (Algorithmus para os latinos) que dá origem ao processo: conjunto de actividades/operações para produção de um resultado para fins de cálculo, processamento de dados e raciocínio automatizado.

Nasce, assim, meia-dúzia de conglomerados digitais essencialmente financiados por capital de risco e fundos de investimento ― entidades vocacionadas para obtenção de rentabilidades elevadas a curto prazo ― que promovem, a dita rentabilidade que tem de ser assegurada para a sua própria subsistência. Regressando ao escrito de 2025, …”esta subsistência implica uma propagação exponencial de informação que deve ser alimentada, enredando-nos, oferecendo a todos nós, atraídos ― pela utilidade de certas ferramentas, e distraídos ― pelo entretenimento, pelo lúdico, pelo emocional frívolo, pelo viciante, por ofertas de relações pseudo-humanas. É grave? …Tomo conhecimento pelo Education at a Glance 2025 da OCDE que 46 % dos portugueses com idades entre os 25 e 64 anos têm muita dificuldade em interpretar textos e só conseguem ler, compreender, os de curta extensão e contendo informação recreativa (distracting information, no original). Isto é, cerca de 5 portugueses em 10, da geração mais bem preparada de sempre, de acordo com o discurso corrente, apresentam esta dificuldade. Valha-nos, pois, a inteligência artificial! Que resulta de programação. E, esta, quem faz?”

“Recorro novamente a Juan Villoro, escrevendo em itálico a minha adaptação de um seu pensamento: utilizar um equipamento para fatiar 2.000 pepinos para um banquete, é inteligente; utilizar um equipamento que nos conduz a não utilizar o cálculo e a memória, é suicídio ― é menorização das faculdades humanas. Mas assim se promove o igualitarismo, se massifica a «igualdade» e se generaliza a ignorância: cada vez mais, mais indivíduos ignorantes mas cada vez mais capazes de fazer o que for necessário ― para tanto sendo bastante clicarem ― produzindo um resultado que outros pensaram como produzir. Estes recolhem o dinheiro todo. Aqueles querem ter salários mais elevados e ainda não perceberam que não podem ter”.

Assim nasce e se desenvolve uma economia decorrente daquelas características, difícil de controlar porque promovida pelo liberalismo dos costumes e jogando com o conhecimento do comportamento humano.

Sendo o algoritmo um processo digital em que assentam as inteligências artificiais e os seus agentes (que têm, no seu desenvolvimento, ganhado capacidades crescentes que vão imbricando o Homem e a máquina) deve assegurar, como todos os processos ― analógicos ou digitais ― imperativamente, o conhecimento do seu objectivo e da sua fonte. É, assim, que na ausência daquele e desta nascem, por exemplo, os «companheiros IA», os médiuns, o versificador (já antecipado em 1984).

Porque o apetite humano pelo consumo e pelo lúdico alimentam o «argumento do vendedor», fazendo-o vencedor, e porque da intensidade da propagação produzida resulta, necessariamente, ansiedade e insatisfação (nem sempre reconhecidas) de que decorre desconforto ― expresso em diversos modos, mas sempre resultante da tensão da «comunicação» com repercussão no espaço público ― parece-me indiscutível a necessidade de regulação daquela propagação e do enredamento que, necessariamente, vão interferindo negativamente com a nossa capacidade cognitiva, a nossa capacidade de resolver, por nós mesmos, as diversas situações existenciais com que nos confrontamos e a nossa relação laboral.

Porque as regras modulam comportamentos e identificam responsabilidades. Mas estas de nada servem se não conduzirem a prestação de contas ― que não pode ficar pela verificação dos efeitos produzidos, tendo de ir às suas causas. Consistindo o algoritmo a infra-estrutura de todo o conteúdo da comunicação a que dá lugar é, aí, que a regulação se deve exercer.

Tomo conhecimento da lei Amara (presidente do Instituto para o Futuro, Palo Alto, nos anos 70) que postula que as grandes rupturas tecnológicas não produzem os cataclismos que seriam de esperar. O que conduz à sobrevalorização das claras vantagens de curto prazo, e à desvalorização dos efeitos de longo prazo.

Um conceito existe que tem estado na sombra, mas a que devemos estar atentos: o pós-humanismo.

Daí o título que dei a esta reflexão.

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