
Por: António Covas
Membro Efetivo nº638
Neste artigo damos continuidade à primeira parte.
Nas grandes etapas do crescimento económico, o desemprego estrutural foi sendo transferido e absorvido pelos sectores emergentes, sendo o terciário, na aceção mais ampla, o último grande recipiente da criação de emprego nos mercados de trabalho. Desta vez, na sociedade tecno-digital, não se trata apenas de lutar contra a infoexclusão, nem mesmo de promover mais start-ups tecnológicas, esses são já dados adquiridos. Mais problemático do que isso, trata-se, agora, de lidar com a sustentabilidade dos sistemas de segurança social a médio prazo, com a mobilidade das diásporas de todo o tipo, com os saldos naturais e migratórios, com a recomposição sociodemográfica de emergência motivada por fluxos repentinos de refugiados e, ainda, com a descontinuação dos percursos profissionais. Se a inovação tecnológica é fundamental, em face dos cenários sociodemográficos e laborais que se adivinham, a inovação e a inclusão sociais serão os fatores críticos do próximo futuro.
Na sociedade tecno-digital da (i)conomia vamos assistir a uma revolução nos comportamentos, se quisermos, a uma outra idiossincrasia dos comportamentos individuais, algures entre a economia da atenção e a economia da diversão. A velocidade da informação, do conhecimento e do relacionamento é, porventura, o conceito-padrão que melhor cola com a realidade do tempo presente e vindouro. Dependendo da escolha da velocidade, assim, as consequências antevistas. Se quisermos ir mais devagar podemos saborear com mais proveito a informação, o conhecimento e a cultura, se optarmos por ir mais depressa a velocidade não nos deixa ver a paisagem que se torna quase uma alucinação. Entre uma atenção mais lenta e uma distração mais veloz, andaremos todos permanentemente em busca de reconhecimento e congratulação, que vamos recebendo em nano doses extraordinariamente voláteis e aleatórias. Esta é uma opção fundamental, crítica mesmo, por isso nós perguntamos qual o ambiente relacional que estará ao nosso alcance para escolhermos a dose certa de inteligência emocional e inteligência racional.
Sabemos que, no plano analítico, qualquer território está na encruzilhada de três tipos de redes: as redes institucionais, geralmente de geometria fixa, as redes sociais, de geometria variável e as redes funcionais, também de geometria variável. Infelizmente, deixámos trocar o capital social, recurso barato e abundante da cooperação interpares, por capital administrativo e estruturas burocráticas do Estado-central e do Estado-local. A desafeição política que hoje se verifica em quase todos os sistemas políticos domésticos tem a ver com este desequilíbrio: o poder reside mais nas redes institucionais e burocráticas do Estado-administração e o capital social, mais difuso e inorgânico, nas redes sociais e funcionais. Sem uma reforma destas instituições numa linha mais colaborativa e descentralizada, o ativismo político das gerações mais jovens passou a morar nas redes sociais e nas comunidades online onde procura pertencimento, identidade e reconhecimento. Estamos, por isso, ainda longe de uma interação favorável e positiva entre comunidades online e offline. Há aqui muito trabalho para fazer em matéria de investigação-ação-extensão.
Sob a forma de plataformas e redes colaborativas a (i)conomia oferece-nos um recurso precioso, acessível e barato, a cooperação territorial descentralizada, imprescindível para a oferta de bens públicos e comuns e a prestação de serviços de proximidade. Além disso, valoriza aqueles elementos que antes podiam ser considerados marginais. De facto, a cooperação descentralizada entre pares serve para recolocar um problema antigo, qual seja, os territórios têm sempre mais recursos do que nós imaginamos, apenas não foram ainda redescobertos e recompostos pela conjugação de ciência e tecnologia, arte e cultura. Esta é, também, a essência da economia criativa que permite novas hermenêuticas territoriais e, portanto, novos significados e significações para reinventar a identidade e a estratégia dos territórios, sobretudo, os mais vulneráveis.
A (i)conomia, pela natureza e variedade dos seus instrumentos de informação, conhecimento e comunicação, abre-nos uma janela de oportunidade privilegiada para a economia criativa e os territórios inteligentes. Os atores-rede – associações, comunidades, instituições, centros de investigação – serão os intérpretes principais destas economias de rede e aglomeração entre ciência e tecnologia, arte e cultura, imprescindíveis no storytelling e na construção social de múltiplas territorialidades e fundamentais na disputa constante entre lugares e não-lugares de identidade territorial.
Nota Final
A digitalização, a automação, a realidade aumentada e virtual, os ambientes imersivos, a inteligência artificial, a computação quântica, estão já na origem de uma explosão da (i)conomia e, por seu intermédio, aumentarão extraordinariamente, esperamos nós, o número e a qualidade das representações que fazemos dos territórios e, por isso, também, as hiperligações entre economia criativa e economia produtiva. Cada território apresentará, assim, múltiplas territorialidades, com muitas significações e significados, logo, com mais oportunidades, muitas escolhas e geometrias variáveis. A grande questão que fica por resolver, face a esta irrupção de multiterritorialidades da (i)conomia, é a qualidade do capital social e, sobretudo, a emergência de um ator-rede capaz de fazer uma intermediação inteligente e imaginativa em benefício dos territórios mais necessitados. Esperamos ter contribuído singelamente para iniciar o caminho que se faz caminhando, trazendo mais amigos para a caminhada da (i)conomia.




