A (i)conomia, o outro lado da economia do século XXI (I)

Por: António Covas

Membro Efetivo nº638

O lado imaterial e intangível, informático e imagético, inteligente e inovador, imaginativo e iconográfico, impressionista e intuitivo, inventivo e investigativo, imprevisível e interpretativo, interdependente e interativo, da economia tecno-digital dos nossos dias mostra-nos o outro lado da economia política do século XXI, isto é, a economia dos ícones ou (i)conomia. Com efeito, a transição digital é uma mudança estrutural de grande alcance que se caracteriza pela desmaterialização, a desintermediação e a desinstitucionalização de processos e procedimentos. Além disso, a associação entre transição digital, automação, inteligência artificial, máquinas inteligentes e ambientes simulados (meta verso), não só altera substancialmente a estrutura socioprofissional do mercado de trabalho como introduz os humanos a um novo código de linguagem e uma cultura de significação e comunicação completamente distintos daqueles que usamos ainda hoje. Ou seja, aqui e agora, estamos em plena transição da iconografia material da economia convencional para a iconografia imaterial da economia simbólica, isto é, para uma verdadeira economia dos ícones, uma (i)conomia. Vejamos, então, o decálogo desta economia simbólica, a transição para a (i)conomia.

  1. A (i)conomia, a intermediação e os mercados biface das plataformas.

As plataformas tecnológicas usam as redes digitais da internet. O objetivo principal é reduzir os custos de intermediação, transação e operação dos agentes que estão no mercado, facilitar a comunicação interna à cadeia de valor e, sobretudo, transferir uma parte importante da mais-valia que eles acumulam para benefício da própria plataforma. Para tal, as plataformas movem-se nos chamados mercados bifaces, a montante gratuitos para os utilizadores, a jusante com publicidade paga pelas empresas. As plataformas são, assim, marketplaces onde se formam novas comunidades empresariais e de negócios, entre empresários (business, B2B), entre empresários e consumidores (B2C) e entre consumidores (C2C). Mas também podemos ter comunidades e redes colaborativas que recuperam o capital social e os recursos ociosos que tinham sido considerados uma espécie de resíduo do capitalismo industrial e, mais relevante ainda, que ultrapassam as instituições burocráticas do capitalismo por meio de redes colaborativas e solidárias de baixo custo. Em síntese, a velha intermediação está posta em causa pela intermediação inteligente.

  1. A (i)conomia e o paradoxo da desmaterialização.

O lado imaterial das plataformas padece de um paradoxo que é, todavia, de fácil explicação. A cadeia de valor da (i)conomia é muito longa e consome muitos recursos materiais. Com efeito, para transformar informação em aplicações e utilizações são necessários, a montante, muitas infraestruturas e equipamentos: centros de dados e computação, que consomem muita energia e recursos hídricos, atividade científica e tecnológica, sistemas inteligentes de distribuição e de cibersegurança. No final, todos estes consumos de recursos acabam por traduzir-se numa elevada pegada material que, em princípio, deverão reentrar nos circuitos da economia circular.

  1. A (i)conomia, as internalidades e o papel nuclear da economia circular.

Na natureza nada se cria, nada se perde tudo se transforma. Tal como a economia do imaterial, também a economia circular transforma radicalmente as cadeias de produção e valor. A sinergia toma progressivamente o lugar da entropia, por duas vias: os resíduos que se transformam em recursos, por sua vez internalizados em atividades económicas, e as externalidades negativas que são reduzidas ou eliminadas e que são, igualmente, internalizadas na atividade económica. Uma terceira via diz respeito à economia dos bens adquiridos que transitam da propriedade para a economia de serviços sob a forma de prestação de serviços. Nesta transição fundamental da propriedade para o serviço a economia dos intangíveis passa a ter uma importância fundamental no desenho e na redefinição da cadeia de valor da mercadoria. A produção de internalidades é, doravante, não apenas um campo específico de investigação, mas, também, uma forma de autorregulação da cadeia local de valor e ao privilegiar a prestação de serviços é toda a comunidade local que beneficia com essa nova rede de trocas.

  1. A (i)conomia, os ícones distintivos e o valor imaterial da cadeia produtiva.

No novo paradigma precisamos de carregar mais valor imaterial para a valorização dos sistemas produtivos locais e regionais a partir dos signos distintivos do território, os seus ícones. Uma denominação de origem, um nicho de mercado, uma marca com notoriedade, um endemismo reconhecido, uma paisagem sublime, um património monumental valioso, um percurso literário, um ícone histórico-cultural, todos estes sinais icónicos são uma espécie de distintos embaixadores que podem operar uma verdadeira arte de valorização das cadeias de valor tradicionais e seus produtos finais. A economia imaterial, mas, também, a economia circular e a economia das redes colaborativas jogam aqui um papel decisivo. Há mesmo, em muitos casos, uma inversão da cadeia de valor dos territórios, pois é a mais-valia simbólica da economia do imaterial e do intangível que determina a importância e a projeção económica da cadeia de valor produtiva. É uma grande oportunidade para as regiões mais pobres em recursos materiais.

  1. A (i)conomia, a iminência do risco global e a governança multirrisco

Na aldeia global somos todos vizinhos, logo, o risco de colisão é uma provação sempre iminente que só uma estrutura de governança multirrisco pode prevenir e abordar corretamente. Doravante, enfrentamos três tipos de risco: o risco sistémico da aldeia global, o risco moral dos nossos vizinhos concidadãos e o risco do aleatório imponderável. No primeiro caso, a aceleração tecnológica reduziu o espaço e a distância e aumentou a interdependência, a interatividade e a instabilidade dos atores em presença. No segundo caso, o risco moral e os efeitos colaterais são uma epidemia que se propaga à velocidade da luz e que se torna “viral” independentemente da nossa vontade. Por fim, estamos completamente à mercê de acontecimentos imprevistos que provocam danos devastadores, naturais e humanos, e que fazem apelo à nossa solidariedade. Para prevenir e impedir a eclosão destes riscos e os seus efeitos de propagação precisamos de um ideário de responsabilidade partilhada, de uma comunidade de prevenção do risco global e de uma estrutura executiva de governança multirrisco enfim, de um projeto comum onde a (i)conomia e os seus instrumentos desempenham um papel proeminente.

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