
Por: António Covas
Membro Efetivo nº638
Na sequência do artigo anterior, talvez possamos dizer que a economia política do século XXI se alongará desde o poder tangível de terras raras e microchips até ao poder intangível da computação e dos modelos de linguagem de uso geral, em inúmeras aplicações que atravessarão todos os campos da sociedade tecno-digital. Ao longo desta imensa cadeia de valor global, a economia política navegará por muitas zonas de interesse e outras tantas áreas críticas. Vejamos, então, de um ponto de vista mais analítico e disciplinar, como se poderá desdobrar a economia política ao longo do século XXI.
Em primeiro lugar, a economia política das áreas de influência (1), sobretudo no cruzamento entre tecnologia, segurança e defesa, de acordo com as determinações fundamentais da geoestratégia e da geopolítica que, hoje em dia, se reportam, a montante, às cadeias de valor globais de terras raras, semicondutores e microchips e, a jusante, a um imenso campo de aplicações, com destaque, nesta fase, para as indústrias de segurança e defesa.
Em segundo lugar, a economia política dos algoritmos de automação e inteligência artificial (2), sobretudo no que diz respeito aos novos modelos de negócio tecno-digitais, os seus impactos no universo socio-laboral e nos modelos de educação e formação profissional, assim como as inúmeras aplicações em modelos de linguagem de uso geral e específico.
Em terceiro lugar, a economia política da regulação de plataformas e conglomerados tecnológicos (3), sobretudo no que se refere aos serviços digitais em geral, à transação entre direitos proprietários e direitos comuns e aos graves problemas de extraterritorialidade e evasão em matéria de lucros e respetiva tributação.
Em quarto lugar, a economia política financeira globalizada da sociedade tecno-digital (4), sobretudo no que diz respeito à desmaterialização monetária e financeira operada por intermédio dos grandes fundos, das multinacionais de gestão de ativos e fortunas, onde, agora, também se contam as moedas virtuais, as criptomoedas e as tecnologias blockchain.
Em quinto lugar, a economia política do trabalho na sociedade tecno-digital (5), em especial as novas abordagens à relação empregador-trabalhador-colaborador, às suas intermitências e flexibilidade, aos problemas de formação ao longo da vida, ao trabalho à distância e nomadismo digital e à pluriatividade dos nativos digitais.
Em sexto lugar, a economia política fiscal e orçamental na sociedade tecno-digital (6), muito em especial o papel nuclear da divisão tripartida dos poderes da sociedade demoliberal na proposta, execução e controlo do instrumento orçamental, seja a justiça fiscal da tributação, a eficiência e equidade da despesa pública ou a boa gestão do défice e dívida públicos.
Em sétimo lugar, a economia política do ambiente e sustentabilidade da sociedade tecno-digital (7), em especial a realização do balanço dos novos consumos de energia em resultado do uso generalizado dos modelos de linguagem da inteligência artificial, mas, também, a definição e utilização criteriosa de novas métricas de sustentabilidade dos recursos naturais, biodiversidade e serviços de ecossistema, a cadeia de valor global mais primordial do nosso futuro coletivo no século XXI.
Em oitavo lugar, a economia política do risco global e da contingência geral (8), em especial, tudo o que diga respeito à economia da prevenção de acidentes climáticos, ao controlo de riscos de cibersegurança, criminalidade organizada e terrorismo e aos processos de socialização e privatização do risco e da contingência e, em todos os casos, com uma incidência muito particular no modo como a União Europeia aborda a mutualização e a governança multirrisco.
Em nono lugar, a economia política das instituições e das redes sociotécnicas (9), uma área privilegiada de inovação e criatividade, a frente mais avançada da economia europeia e da destruição criativa onde os clusters, os consórcios e as redes sociotécnicas de tecnologia, economia, segurança e defesa no espaço europeu são capazes de gerar projetos de investimento de alto valor acrescentado que, isoladamente, seriam impossíveis de realizar.
Em décimo e último lugar, a economia política dos bens comuns e colaborativos (10), uma área que crescerá exponencialmente nas áreas da ciência e tecnologia, do património natural e cultural, das artes e da cultura, mas, também, da economia da comunhão e da solidariedade, por se tratar de uma herdeira direta da sociedade tecno-digital e da aplicação dos seus direitos comuns, colaborativos, comunitários e cooperativos.
Nota Final
A economia política do século XXI é um ator direto de uma luta verdadeiramente existencial e civilizacional. Do mundo analógico para o universo digital, o capital mudou de natureza, o trabalho mudou de natureza, os mercados mudaram de natureza, as instituições mudaram de natureza, o Estado-administração parece resiste, mas também mudará de natureza. A este propósito, é curioso constatar que o Prémio Nobel da Economia em 2024 premiou o tema da economia institucional e em 2025 o tema da destruição criativa e inovação. Ora, justamente, um ator e uma instituição como a ordem dos economistas terá sempre uma palavra a dizer sobre estas mudanças estruturais da nossa civilização e cultura. Estes dois textos são um modesto contributo para essa reflexão fundamental.




