
Por: João Grazina Santos
Membro Efetivo nº16897
Nos últimos anos, a economia digital deixou de ser uma promessa para se afirmar como uma realidade incontornável no tecido produtivo português. Enquanto economista, observo com atenção crescente a forma como a digitalização está a reconfigurar setores inteiros, desde o retalho ao turismo, passando pela banca e pela administração pública. Contudo, importa olhar para os dados com rigor, evitando tanto o entusiasmo acrítico como o pessimismo infundado.
Portugal tem registado avanços notáveis no índice de Digital Economy and Society Index (DESI), da Comissão Europeia, situando-se acima da média comunitária em indicadores como a conectividade e a prestação de serviços públicos digitais. O programa Portugal INCoDe.2030, lançado em 2017, revelou-se um catalisador relevante na capacitação digital da população, embora persistam clivagens geracionais e regionais. Ainda assim, o país exibe uma penetração de fibra ótica superior à média da OCDE, o que cria uma base infraestrutural sólida para o desenvolvimento de atividades económicas de base tecnológica.
Do ponto de vista empresarial, a transformação digital tem sido mais rápida nas grandes empresas e nos setores expostos à concorrência internacional. O setor financeiro, por exemplo, assistiu a uma migração massiva para o homebanking e para os pagamentos instantâneos, reduzindo drasticamente a utilização de numerário. Já as pequenas e médias empresas, que representam 99% do tecido empresarial nacional, revelam maior heterogeneidade. Muitas ainda carecem de estratégias integradas de digitalização, limitando-se à presença básica em redes sociais ou à adoção de softwares de faturação. Esta assimetria constitui um travão à produtividade agregada da economia portuguesa.
O comércio eletrónico, embora em crescimento, ainda representa uma percentagem modesta do consumo total. De acordo com dados do Banco de Portugal, o valor das compras online transfronteiriças cresceu a ritmos de dois dígitos antes da pandemia, mas a balança continua deficitária: os portugueses compram mais em sites estrangeiros do que os estrangeiros compram em sites nacionais. Este fenómeno reflete, em parte, a menor oferta de plataformas portuguesas de escala internacional e a preferência dos consumidores por gigantes como Amazon, Alibaba ou Zalando.
No plano do emprego, a economia digital tem um efeito ambivalente. Por um lado, criam-se postos de trabalho na área das tecnologias da informação, cibersegurança, análise de dados e marketing digital. Lisboa e Porto consolidaram- se como pólos de atração de startups e de centros de desenvolvimento de empresas multinacionais (ex.: Siemens, Google). Por outro lado, setores tradicionais como o comércio retalhista, os transportes e a hotelaria enfrentam pressões para automatizar processos, o que pode eliminar funções de baixa qualificação. A aposta na requalificação profissional, o chamado reskilling, é, portanto, uma prioridade de política pública.
Há ainda um tema subjacente que poucos economistas discutem com a profundidade devida: a fiscalidade na economia digital. Portugal tem seguido as orientações da OCDE e da UE no sentido de tributar o valor onde este é gerado, mas a realidade das empresas digitais (muitas sem presença física no território) torna difícil captar receitas fiscais proporcionais ao volume de negócios realizado. A recente implementação do IVA digital nas plataformas eletrónicas foi um passo positivo, mas a tributação direta continua a depender de acordos multilaterais que avançam lentamente.
Para o futuro, antevejo três desafios centrais. Primeiro, a qualificação digital da força de trabalho tem de acompanhar o ritmo da inovação, sob pena de se agravarem as desigualdades salariais. Segundo, o investimento em cibersegurança é crítico, especialmente quando se expandem serviços públicos digitais e se incentiva o pagamento eletrónico. Terceiro, Portugal precisa de criar ecossistemas regionais de inovação digital fora do eixo litoral, evitando a concentração excessiva na Área Metropolitana de Lisboa.
Em suma, a economia digital em Portugal é um processo em curso, com avanços sólidos mas também fragilidades estruturais. Não basta ter boas infraestruturas; é necessário transformá-las em ganhos de produtividade, coesão social e competitividade externa. Como economista, considero que o próximo ciclo de fundos comunitários (PT2030) deverá focar-se menos na digitalização instrumental e mais na integração sistémica entre tecnologia, capital humano e tecido empresarial. Só assim a transição digital deixará de ser um modismo para se tornar uma verdadeira alavanca de desenvolvimento sustentado.




