
Por: Marco Dias
Membro Sénior nº15058
Falar de salários em Portugal é, muitas vezes, falar de aumentos nominais. Quando a remuneração bruta total mensal média por trabalhador passa de 1.179 euros, em 2015, para 1.694 euros, em 2025, a conclusão parece evidente: os salários aumentaram significativamente. O crescimento nominal foi de cerca de 44%.
Mas existe uma pergunta mais importante: quanto aumentou, efetivamente, o poder de compra dos trabalhadores portugueses?
Mas os preços também subiram, pelo que o recibo de vencimento não conta toda a história.
O salário que recebemos e aquilo que conseguimos comprar
O salário nominal corresponde ao montante recebido. O salário real procura medir o que esse rendimento permite comprar, descontando o efeito da inflação. Esta distinção tornou-se especialmente importante depois de 2021.
Em 2022, a inflação atingiu 7,8% em Portugal, enquanto a remuneração bruta média aumentou apenas cerca de 3,7%. Como os preços subiram mais depressa do que os salários, o poder de compra diminuiu.
A inflação acumulada encareceu os alimentos, a habitação, a energia, os transportes e muitas outras despesas das famílias. Por isso, uma taxa de inflação posterior próxima dos 2% não significa que os preços tenham regressado aos níveis anteriores. Significa apenas que continuam a aumentar, embora a um ritmo mais lento.
A inflação mede todo o custo de vida?
O salário real é normalmente calculado recorrendo ao Índice de Preços no Consumidor (IPC), uma medida adequada para acompanhar a evolução dos preços de um cabaz de consumo. Ainda assim, há uma limitação relevante: o IPC não reflete diretamente a subida do preço das casas adquiridas pelas famílias, nem o custo do financiamento da habitação da mesma forma que estes encargos são sentidos no orçamento familiar.
As rendas, a eletricidade, o gás, a água e a manutenção entram no cálculo. Já o preço de compra de uma casa não entra diretamente no IPC, e a prestação do crédito à habitação não é tratada como uma despesa de consumo da mesma forma que uma renda.
Esta diferença importa num país onde a habitação pesa muito no orçamento: quem entra hoje no mercado de arrendamento pode suportar custos muito superiores aos de alguém que arrendou casa há dez anos.
Assim, quando afirmamos que o salário real aumentou, estamos a falar de uma medida estatística agregada. Isso não significa que todas as famílias tenham sentido uma melhoria equivalente do seu poder de compra.
2023 a 2025: recuperação, mas não sem perdas
A partir de 2023, a relação entre salários e inflação voltou a favorecer os trabalhadores. Nesse ano, a remuneração média aumentou cerca de 6,6%, enquanto a inflação média anual foi de 4,3%. Em 2024, o crescimento nominal voltou a superar a inflação.
Em 2025, a remuneração bruta total mensal média atingiu 1.694 euros, mais 5,6% do que no ano anterior. A inflação anual ficou próxima dos 2,3%, permitindo um crescimento real da remuneração de cerca de 3,2%.
Os trabalhadores recuperaram, assim, parte do poder de compra perdido durante o choque inflacionista. Mas recuperar não é o mesmo que nunca ter perdido.
O salário médio não é o salário do trabalhador médio
Entre 2015 e 2025, a remuneração média cresceu cerca de 44% em termos nominais. Quando descontamos o efeito da inflação, a estimativa acumulada aponta para um aumento real na ordem dos 16%.
Por outras palavras, por cada 100 euros de poder de compra salarial em 2015, o trabalhador médio teria hoje aproximadamente 116 euros — e não os 144 euros que a evolução nominal poderia sugerir.
Há, porém, outra cautela: o salário médio não representa necessariamente o trabalhador que se encontra no centro da distribuição salarial. A média pode subir sem que todos beneficiem da mesma forma, pois a evolução varia entre setores, profissões, qualificações e regiões. A mesma subida percentual também tem efeitos diferentes consoante o salário de partida.





