Uma reforma fiscal inadiável em Portugal

Por: Carlos Alves

Membro Conselheiro nº2955

Portugal precisa urgentemente de uma verdadeira reforma fiscal. Não se trata de um ajuste marginal ou de mais uma alteração avulsa ditada por ciclos políticos. Trata-se de repensar profundamente um sistema que, ao longo das últimas décadas, se tornou excessivamente complexo, ineficiente e, em muitos aspetos, injusto.

A evidência é clara. O sistema fiscal português caracteriza-se por uma complexidade excessiva, por custos elevados de cumprimento e por uma instabilidade normativa que penaliza sobretudo as pequenas e médias empresas. Esta complexidade não é apenas um problema técnico: é um entrave direto à competitividade da economia, desincentivando o investimento e incentivando comportamentos de evasão fiscal e de economia informal.

Além disso, Portugal apresenta uma carga fiscal elevada e mal distribuída. A receita fiscal tem vindo a aumentar ao longo do tempo, ultrapassando a média da OCDE, mas as bases de tributação são estreitas, o que significa que uma parte significativa do esforço fiscal recai sobre um número relativamente reduzido de contribuintes. Este desequilíbrio mina a justiça fiscal, e sua perceção pelos contribuintes, e fragiliza a coesão social.

Outro problema estrutural reside na proliferação de benefícios fiscais. Existem centenas de medidas dispersas por dezenas de diplomas legais, o que representa uma despesa fiscal significativa – cerca de 7,2% do PIB em 2024. Em vez de promover eficiência, este emaranhado de exceções cria distorções, favorece alguns setores sem critérios claros e aumenta ainda mais a complexidade do sistema.

No caso das empresas, a situação é particularmente preocupante. Portugal encontra-se entre os países menos competitivos da OCDE em matéria de fiscalidade empresarial. As taxas elevadas, a progressividade no IRC e os múltiplos ajustamentos fiscais afastam investimento, penalizam o crescimento das empresas e incentivam o endividamento em detrimento da capitalização. O resultado é uma economia menos dinâmica, com menor produtividade e salários mais baixos.

Também no IRS se acumulam problemas. O sistema é altamente progressivo, com múltiplos escalões e taxas marginais elevadas, frequentemente agravadas por mecanismos indiretos, como a não atualização das deduções ou dos escalões face à inflação. Isto traduz-se num aumento silencioso da carga fiscal e num desincentivo ao trabalho qualificado e à poupança.

Perante este diagnóstico, a necessidade de reforma não é apenas evidente. É inadiável.

Uma reforma fiscal eficaz deve assentar em princípios claros: simplicidade, equidade, moderação e competitividade. É fundamental reduzir drasticamente a complexidade do sistema, eliminando benefícios fiscais redundantes e criando regras transparentes e estáveis. Ao mesmo tempo, é necessário alargar as bases de tributação, garantindo que todos contribuam de forma justa, o que permitirá reduzir as taxas sem perda de receita.

No plano empresarial, a prioridade deve ser um IRC mais simples, com uma taxa mais baixa e sem progressividade, capaz de atrair investimento e estimular o crescimento. No IRS, impõe-se a redução do número de escalões e a adoção de uma estrutura mais equilibrada, que não penalize excessivamente o rendimento do trabalho nem desincentive a poupança.

Por fim, qualquer reforma fiscal séria deve ser acompanhada de uma mudança no paradigma das finanças públicas. Não deve ser a despesa a determinar a receita, mas sim o contrário: o nível de despesa pública deve ajustar-se a um esforço fiscal sustentável.

Em suma, uma reforma fiscal não é apenas uma questão técnica. É uma escolha estratégica sobre o modelo de país que queremos. Um sistema fiscal mais simples, justo e competitivo não só promoverá o crescimento económico, como também reforçará a confiança dos cidadãos nas instituições. Adiar esta reforma é perpetuar um sistema que trava o desenvolvimento e penaliza o futuro.

 

  Artigo publicado na coluna mensal “Economia na Ordem” do Jornal Vida Económica.

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