
Por: Marco Dias
Membro Sénior nº15058
A produtividade é uma das variáveis mais importantes para compreender o desempenho de uma economia e, simultaneamente, uma das menos discutidas no debate público português.
Quando se fala de crescimento económico, salários, competitividade ou sustentabilidade das finanças públicas, discutem-se frequentemente impostos, emprego ou despesa pública. Porém, existe uma variável transversal a todas estas dimensões: a capacidade de uma economia gerar valor a partir dos recursos que utiliza.
E Portugal continua a apresentar uma diferença significativa face à Europa.
Em 2024, cada hora trabalhada em Portugal gerou, em média, 28,7 euros de produto, contra 51,2 euros na União Europeia. A produtividade horária portuguesa correspondia, assim, a apenas cerca de 56% da média europeia. (PORDATA)
A questão não é, portanto, simplesmente saber quantas horas trabalham os portugueses.
É perceber quanto valor conseguimos gerar por cada hora de trabalho.
Mais produtividade, não necessariamente mais trabalho
A produtividade do trabalho pode aumentar através de mais capital por trabalhador, melhores qualificações, tecnologia, inovação e uma utilização mais eficiente dos recursos.
Esta distinção é fundamental numa economia como a portuguesa.
Portugal enfrenta um processo de envelhecimento demográfico e uma redução futura da população em idade ativa. Não será, por isso, possível sustentar o crescimento económico simplesmente através do aumento do número de trabalhadores ou das horas trabalhadas.
A solução terá de passar por produzir mais com os mesmos recursos.
Segundo a OCDE, a produtividade do trabalho em Portugal permanece cerca de 17% abaixo da média da OCDE, apesar da melhoria registada nos últimos anos. (OCDE)
Portugal está a melhorar.
Mas a questão relevante é se está a melhorar suficientemente depressa para convergir.
O peso das pequenas empresas
Um dos fatores estruturais está no tecido empresarial.
As empresas com menos de dez trabalhadores representam cerca de 39% do emprego empresarial português, enquanto as empresas com menos de 50 trabalhadores concentram aproximadamente 60% do emprego. (OCDE)
Não significa que as pequenas empresas sejam necessariamente pouco produtivas.
O problema está na dificuldade que muitas empresas encontram em ganhar escala.
Empresas maiores conseguem, em regra, diluir custos fixos, investir mais em tecnologia, contratar competências especializadas, aceder mais facilmente a financiamento e internacionalizar-se.
A OCDE identifica precisamente níveis de produtividade significativamente inferiores nas micro e pequenas empresas portuguesas face às empresas de maior dimensão.
Mais importante ainda, existe uma elevada dispersão de produtividade entre empresas semelhantes. Algumas empresas são muito mais eficientes do que outras com dimensão e características comparáveis.
Isto revela que existe margem significativa para ganhos de produtividade através de melhor gestão, tecnologia, organização e escala.
Investimento e inovação
Não existe produtividade elevada sem investimento.
Máquinas mais eficientes, automação, software, inteligência artificial e novos processos produtivos permitem produzir mais utilizando os mesmos recursos.
Portugal continua, contudo, a apresentar dificuldades na transformação do investimento em ganhos de produtividade.
O problema não é apenas investir mais em investigação e desenvolvimento. É também conseguir transformar conhecimento em inovação empresarial e inovação em valor acrescentado.
A ligação entre universidades, centros de investigação e empresas continua, por isso, a ser determinante.
A tecnologia, por si só, também não resolve o problema.
Uma empresa pode ter acesso a inteligência artificial ou a sistemas digitais avançados, mas se não tiver capacidade de gestão para os integrar nos seus processos produtivos, o impacto económico será reduzido.
A produtividade não nasce da tecnologia. Nasce da utilização eficiente da tecnologia.
Capital humano e eficiência
A produtividade depende igualmente das competências disponíveis.
Portugal aumentou significativamente a escolarização da população, mas continua a enfrentar problemas de desadequação entre qualificações e necessidades das empresas.
A OCDE identifica skill mismatches e dificuldades de recrutamento como obstáculos à expansão empresarial e ao crescimento da produtividade.
É necessário, portanto, não apenas aumentar qualificações, mas aproximá-las das necessidades de uma economia em transformação.
Existe ainda uma dimensão menos visível: a eficiência alocativa.
Numa economia eficiente, capital e trabalho devem deslocar-se progressivamente para as empresas mais produtivas.
Quando empresas eficientes encontram obstáculos à expansão ou quando recursos permanecem demasiado tempo em atividades pouco produtivas, a economia perde potencial.
A OCDE identifica precisamente problemas na afetação eficiente dos recursos em Portugal e aponta barreiras regulatórias e administrativas como fatores que podem dificultar o crescimento das empresas mais produtivas.
Produtividade e salários
É aqui que a produtividade ganha uma dimensão social.
Portugal pretende aproximar os salários dos trabalhadores dos níveis praticados nas economias europeias mais desenvolvidas. Esse objetivo é legítimo.
Mas a convergência salarial sustentável depende, em grande medida, da convergência da produtividade.
Não significa que os salários devam esperar passivamente pela produtividade. Significa que aumentos salariais sustentados no longo prazo precisam de ser acompanhados por aumentos do valor produzido por trabalhador.
A equação é simples:
se os custos do trabalho crescem persistentemente mais depressa do que a produtividade, a pressão acaba por surgir nas margens, nos preços, no investimento ou no emprego.
A verdadeira estratégia para aumentar salários passa, portanto, por produzir mais valor por trabalhador.
O verdadeiro desafio português
A produtividade não é apenas uma questão empresarial.
É uma questão de crescimento económico, salários, competitividade e sustentabilidade das próprias finanças públicas.
Com uma população ativa que tenderá a diminuir, Portugal terá cada vez menos margem para crescer através de mais trabalho.
O crescimento futuro terá de depender sobretudo de mais capital por trabalhador, melhor qualificação, inovação, tecnologia, escala empresarial e maior eficiência na utilização dos recursos.
Portugal não tem um problema de falta de vontade de trabalhar.
Tem um problema de valor criado por hora trabalhada.
Por isso, a pergunta que deveríamos fazer não é:
“Como podemos trabalhar mais?”
É outra:
“Como podemos produzir mais com cada hora que trabalhamos?”
Porque é na resposta a esta pergunta que estará uma parte decisiva da capacidade de Portugal aumentar salários, melhorar o nível de vida e garantir, no futuro, a sustentabilidade do seu Estado Social.





