
Por: Marco Dias
Membro Sénior nº15058
Enquanto o preço dos combustíveis continua a pesar no orçamento das famílias, uma questão mantém-se atual: porque é que abastecer em Portugal continua a ser significativamente mais caro do que aquilo que os rendimentos dos portugueses permitem suportar?
Embora o preço do petróleo nos mercados internacionais tenha influência, a realidade portuguesa resulta da combinação de vários fatores internos, entre os quais se destacam a elevada carga fiscal, os baixos salários e a forte dependência do automóvel.
Os números mostram que o problema está longe de ser apenas conjuntural.
O preço dos combustíveis cresce muito acima dos salários
Entre 2015 e 2026, o preço médio dos combustíveis em Portugal aumentou cerca de 76%, enquanto o salário médio líquido cresceu apenas 25%.
Esta diferença significa que o poder de compra das famílias relativamente aos combustíveis deteriorou-se de forma significativa.
Na prática, os portugueses precisam hoje de dedicar uma parcela muito maior do seu rendimento mensal para percorrer exatamente as mesmas distâncias do que há uma década.
Não se trata apenas de inflação. Trata-se de uma perda efetiva de rendimento disponível.
Mais de metade do preço corresponde a impostos
Um dos aspetos mais relevantes da estrutura do preço dos combustíveis é o peso da fiscalidade.
Na gasolina simples 95, cerca de 52% do valor pago pelo consumidor corresponde a impostos e taxas.
Essa carga reparte-se essencialmente entre:
* ISP (Imposto sobre Produtos Petrolíferos);
* IVA;
* Taxa de Carbono.
Ou seja, mais de metade do valor pago em cada litro não corresponde ao combustível propriamente dito, mas sim à receita arrecadada pelo Estado.
Receita fiscal continua a aumentar
Apesar das medidas pontuais de redução do ISP implementadas em alguns períodos, a receita fiscal proveniente dos combustíveis continua elevada.
Até março de 2026, o Estado arrecadou aproximadamente 2.998 milhões de euros, representando um aumento de cerca de 5,4% face ao mesmo período do ano anterior.
Este crescimento demonstra que o consumo continua elevado e que a fiscalidade sobre os combustíveis permanece uma importante fonte de receita pública.
Portugal continua atrás dos principais parceiros europeus
Quando se compara o esforço financeiro necessário para abastecer, as diferenças tornam-se evidentes.
Com um salário médio líquido mensal, um trabalhador consegue adquirir aproximadamente:
* 717 litros de gasolina em Portugal;
* 1.145 litros em Espanha;
* 1.333 litros em França;
* 1.506 litros na Alemanha.
Apesar de os preços dos combustíveis variarem entre países, o verdadeiro problema português está na conjugação entre preços elevados e salários relativamente baixos.
Na prática, um trabalhador alemão consegue comprar mais do dobro dos litros de combustível que um trabalhador português com o respetivo salário médio.
Dependência do automóvel agrava o impacto
Em grande parte do território nacional, especialmente fora dos grandes centros urbanos, o automóvel continua a ser uma necessidade e não uma opção.
A escassez de transportes públicos eficazes faz com que milhares de famílias não tenham alternativas reais para se deslocarem para o trabalho, escola ou serviços de saúde.
Sempre que o preço dos combustíveis aumenta, o impacto é praticamente imediato no orçamento familiar.
Uma transição energética que ainda não chega a todos.
A descarbonização da economia constitui um objetivo importante.
No entanto, a transição energética enfrenta uma dificuldade evidente: muitas famílias não possuem capacidade financeira para substituir um veículo a combustão por um automóvel elétrico.
Sem incentivos suficientemente abrangentes e sem alternativas de mobilidade acessíveis, a transição acaba por penalizar sobretudo quem tem menores rendimentos.
O impacto económico vai além das famílias.
Os combustíveis não afetam apenas quem conduz.
Custos mais elevados de transporte repercutem-se em praticamente toda a economia:
* aumento dos custos logísticos;
* maior pressão sobre os preços dos bens essenciais;
* perda de competitividade das empresas;
* redução do rendimento disponível das famílias.
Assim, o preço dos combustíveis torna-se também um fator de pressão sobre a inflação e sobre o crescimento económico.
Uma escolha política com consequências económicas
É verdade que Portugal não controla a cotação internacional do petróleo.
Contudo, controla uma parte significativa do preço final através da política fiscal.
Num país caracterizado por salários relativamente baixos e forte dependência do transporte individual, a manutenção de uma carga fiscal elevada sobre os combustíveis tem consequências económicas e sociais relevantes.
Uma política mais equilibrada poderia permitir aliviar parte da pressão sobre famílias e empresas sempre que os preços internacionais aumentam, sem comprometer os objetivos ambientais.
Conclusão
O debate sobre os combustíveis não deve limitar-se ao preço apresentado nas bombas.
A questão central é perceber quanto desse preço resulta das condições internacionais e quanto decorre de decisões internas.
Enquanto os salários continuarem a crescer muito abaixo do custo da mobilidade e mais de metade do preço dos combustíveis corresponder a impostos, Portugal continuará entre os países onde abastecer pesa mais no orçamento das famílias.
Encontrar um equilíbrio entre sustentabilidade ambiental, justiça fiscal e competitividade económica será um dos maiores desafios da política energética portuguesa nos próximos anos.





