Nuvens no Horizonte? Os Açores terão menos ligações internacionais em 2026…

Por: Camilo Moniz

Membro Conselheiro nº8373

Na minha qualidade de Presidente da Direção da Delegação Regional dos Açores da Ordem dos Economistas abordo uma preocupação crescente que se perspetiva para a economia açoriana no futuro próximo: a redução da oferta aérea internacional para o nosso arquipélago. Esta questão, de natureza estrutural, exige uma análise económica aprofundada e um planeamento estratégico robusto.

A última década foi, para os Açores, um período de transformação inegável, impulsionado, em grande parte, pela liberalização do espaço aéreo em 2015. Esta medida catapultou o turismo para o patamar de motor económico primordial, gerando um afluxo de visitantes sem precedentes e revitalizando diversos setores da economia. A dependência do turismo e, consequentemente, da conectividade aérea, acentuou-se significativamente.

A perspetiva de uma redução na oferta de voos internacionais representa um desafio de monta, com múltiplas ramificações para a economia açoriana. O impacto mais direto será, naturalmente, na diminuição do número de turistas. Uma menor acessibilidade traduz-se em menos chegadas, afetando diretamente as taxas de ocupação hoteleira, a faturação da restauração, o volume de negócios das empresas de animação turística e o comércio local. Esta quebra na procura terá repercussões negativas na receita turística global, pondo em risco a sustentabilidade de muitos negócios que se desenvolveram e investiram na última década, contando com o crescimento contínuo do setor.

A estabilidade do emprego é outra preocupação central. O setor do turismo é um grande empregador nos Açores pelo que uma diminuição da atividade poderá levar a redução de quadros, precariedade laboral e desemprego, especialmente em profissões de menor qualificação e com um carácter sazonal já inerente. Este cenário pode exacerbar os desafios demográficos que a região já enfrenta, nomeadamente a emigração de jovens em busca de melhores oportunidades.

Os setores complementares, que foram indutores do crescimento turístico, também sentirão os efeitos desta retração. A produção agroalimentar local, que encontrou no turismo um mercado crescente, a construção civil, o transporte terrestre e os serviços de apoio serão inevitavelmente impactados. A capacidade de captação de investimento privado em turismo poderá abrandar face à incerteza da conectividade. Adicionalmente, uma menor oferta de voos pode levar a um aumento dos preços dos bilhetes para os restantes voos, penalizando não só o turista, mas também os residentes e as empresas açorianas que dependem desta conectividade para a sua atividade diária e para a exportação de produtos.

Enquanto economistas, devemos encarar esta situação não apenas como um problema, mas também como um catalisador para uma reflexão estratégica. É uma oportunidade, ainda que imposta, para reavaliar o modelo turístico açoriano e reforçar a sua sustentabilidade. Poderá forçar-nos a um maior foco em segmentos de turismo de alto valor acrescentado, que priorizam estadias mais longas, experiências mais imersivas e uma maior dispersão geográfica e temporal, reduzindo a pressão sobre os nossos recursos mais frágeis. O objetivo deve ser atrair turistas que contribuam mais para a economia local e menos para as externalidades negativas.

Face a este cenário, a Delegação da Ordem dos Economistas dos Açores sublinha a urgência de:

  1. Diálogo Estratégico: Intensificar o diálogo com as companhias aéreas e com as entidades reguladoras para mitigar esta redução e explorar novas soluções.
  2. Diferenciação e Marketing: Reforçar o posicionamento dos Açores como destino turístico único e sustentável, capaz de atrair nichos de mercado mais resilientes e de maior valor.
  3. Diversificação de Mercados: Não depender excessivamente de poucos mercados emissores e explorar novas geografias.
  4. Conectividade Interna: Potenciar as ligações aéreas inter-ilhas e com o Continente Português, enquanto pilares de resiliência.
  5. Apoio ao Setor: Criar mecanismos de apoio para que as empresas locais se adaptem e inovem, explorando novas fontes de receita e mercados.
  6. Sustentabilidade: Independentemente dos volumes, a aposta na sustentabilidade ambiental e social do turismo deve ser inegociável.

Em suma, a perspetiva de uma redução na oferta aérea internacional é um sinal de alerta que exige uma resposta coordenada e visionária. A nossa economia demonstrou capacidade de adaptação no passado. Agora, o desafio é canalizar essa resiliência para transformar uma potencial fragilidade numa oportunidade para construir um futuro turístico e económico mais robusto, equilibrado e verdadeiramente sustentável para os Açores.

 

  Artigo publicado na coluna mensal “Economia na Ordem” do Jornal Vida Económica.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Skip to content