Ética, Economistas e Deontologia

Por: António Duarte Santos

Membro Conselheiro nº16332

A evolução da sociedade face a momentos de crises sociais e económicas leva a questionar a integridade dos economistas. Abordar esta realidade coloca-nos no domínio da honestidade dos economistas. O mesmo é dizer que o objetivo dos economistas é o de manter permanentemente a confiança pública. As pessoas, na sua dimensão ética, reagem a incentivos, sejam eles de que sinal forem, mas agem também por motivos morais.

Os economistas precisam de reconhecer que a prática da ciência económica necessita da atenção e da ação destes atributos e têm de admitir que não é fácil adaptarem-se a este exemplo de atuação. A vivência social exige uma afirmação específica sobre o tipo de moralidade que motiva as pessoas. Ela é deontológica. O que isso significa? Até que ponto é verdade e qual a diferença que isso faz? O cidadão tem a sua dimensão social e jurídica, enquanto a pessoa tem a sua dimensão ética. As duas são tangentes e secantes, isto é, tocam-se e sobrepõem-se, entrando na sua dimensão deontológica.

Factos e valores estão mutuamente relacionados, tanto no mundo real quanto na análise económica. Só depois se pode discutir a ética deontológica. Esta abordagem preocupa-se com a equidade e a dignidade, por via das normas jurídicas e, logo, como essas normas se tornam em direitos e obrigações, restringindo as escolhas individuais. A deontologia difere da maximização da utilidade da ética utilitarista, onde a ética aparece nas funções de utilidade tidas como preferências virtuosas.

Então, embora a deontologia seja mais eficaz que o utilitarismo na análise da ética em economia, ela apresenta fragilidades próprias. Essas fragilidades exigem uma outra teoria da ética para a economia, que é a ética da virtude (Aristóteles), que enfatiza a interdependência das pessoas e o compromisso com valores compartilhados, para além das regras institucionalizadas pela sociedade. A ética da virtude internaliza a moralidade não como uma preferência ou uma restrição, mas como um meio das práticas nas quais as pessoas se relacionam em sua busca do seu bem-estar.

Existe uma diferença subtil, porém importante, entre os conceitos de “moralidade” e “ética”, que tem de ser levada em consideração. Lidar com dilemas morais e éticos é o que enfrentamos ao longo da vida. A moralidade diz respeito às crenças concretas ou ações específicas de pessoas em termos do que é o “bem” e o “mal”, enquanto a ética é mais abrangente, concentrando-se na reflexão sobre as razões a favor ou contra determinadas crenças ou ações morais.

Esta confusão de conceitos é um insucesso conhecido da ética deontológica: uma coisa é saber o que é melhor fazer, outra, bem diferente, é agir de acordo. É o caráter face aos hábitos. É claro que uma autoridade pode impor uma regra moral, mas sem um voto maioritário a favor da norma jurídica ela pode não ser cumprida. A frustração de muitas pessoas bem-intencionadas, mas com desconfiança e falta de vontade política para fazer cumprir os deveres morais, foi eloquentemente expressa pelo vocalista da banda U2, Bono: “Temos o dinheiro, temos os medicamentos, temos a ciência, mas temos a vontade de fazer da pobreza uma coisa do passado?”

 

  Artigo publicado na coluna mensal “Economia na Ordem” do Jornal Vida Económica.

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