
Por: António Covas
Membro Efetivo nº638
O sistema produtivo intermunicipal numa área de baixa densidade e com vários problemas de coesão territorial pode ser considerado uma infraestrutura crítica para efeitos de formulação e realização de política pública e, desde logo, como um território inteligente e criativo elegível para a estratégia nacional de territórios inteligentes (ENTI). É certo, a transformação tecno-digital é imprescindível, mas enfrenta muitas dificuldades para promover o círculo virtuoso do desenvolvimento nas áreas de baixa densidade. Se, por um lado, a conexão digital reduz a invisibilidade do problema, trá-lo para o espaço público, faz ruído à sua volta, chama a atenção do poder político que, assim, fica confrontado com as suas próprias responsabilidades, por outro, as comunidades online precisam ainda de fazer prova de vida, pois não podem tratar a realidade como um mero epifenómeno, um sinal eletromagnético ou uma série de eventos que se consome com grande voracidade. Dito de outro modo, as comunidades virtuais têm de sair do modo encenação ou do modo representação se quiserem que a sua proposta virtual seja convertida em ação real e efetiva.
Depois do PRR 2026 e do PT 2030 e agora com o PTRR 2034 e o PT 2034 é preciso, desde já, preparar as diversas economias regionais, e as CIM em especial, para as estratégias de recuperação e desenvolvimento que são necessárias, na perspetiva de “o sistema produtivo intermunicipal como infraestrutura crítica e a CIM região-cidade como protagonista principal”. Neste sentido, importará saber, por exemplo, em que níveis vamos colocar a provisão de serviços comuns fundamentais como:
– Os transportes públicos e a sua interoperabilidade à luz da mobilidade suave,
– As medidas de combate contra as alterações climáticas e a redução das nossas pegadas,
– O abastecimento local de alimentos, a agricultura comunitária e o institutional foods,
– A oferta de assistência médica, cuidados ambulatórios e serviços de apoio domiciliário,
– A oferta de serviços ambientais e serviços culturais de lazer e recreio,
– A oferta de serviços de segurança pública e proteção aos grupos mais vulneráveis,
– A oferta de serviços públicos administrativos, de serviços postais e bancários,
– A oferta de serviços de ensino e formação profissional para a transição digital,
– A proposta de novas cadeias de valor CIM, intermunicipais e inter-regionais.
Na sociedade da informação e do conhecimento como criar, então, um território inteligente e criativo, um território-rede dotado de uma inteligência coletiva territorial onde o todo seja maior do que a soma das partes? Se quisermos, como criar uma estratégia de smartificação do território? Em termos simples, eis a minha proposta de smartificação que pode ser aplicado, com vantagem, ao território de uma CIM.
Em primeiro lugar, é necessário nomear uma estrutura de missão que seja representativa e capaz de suscitar o entusiasmo inicial para a ideia de um território-rede-desejado; a CIM, as instituições de ensino superior e as associações empresariais podem dar esse pontapé de saída.
Em segundo lugar, é necessário delimitar um território de partida para o sistema intermunicipal, que pode ser um território de referência CIM, um sistema produtivo multilocal ou um arranjo produtivo regional para lá das fronteiras de uma CIM, de preferência um território com marcas locais distintivas.
Em terceiro lugar, é necessário eleger a distinção territorial, isto é, a linha de transformação de recursos em ativos e estes em signos distintivos que sejam a base de uma ação coletiva inovadora e criativa e fazer, se for o caso disso, algum ajustamento nos limites do território escolhido.
Em quarto lugar, é necessário constituir um ator-rede e uma curadoria territorial, isto é, que se proceda à transformação da estrutura de missão numa estrutura operacional que prepare a estratégia, o programa operacional da CIM e o seu networking.
Em quinto lugar, é necessário que o ator-rede e a curadoria territorial concebam a iconografia do território CIM e o seu mapeamento gravitacional, não apenas para suscitar a adesão simbólica e identitária dos atores envolvidos no projeto, mas, também, para a base narrativa de uma estratégia de comunicação e marketing.
Em sexto lugar, é necessário conceber uma plataforma colaborativa CIM made in para aumentar a interação e a conexão colaborativas entre todos os parceiros do projeto, em especial, as diversas “comunidades inteligentes” que integram o território CIM.
Em sétimo lugar, é necessário elaborar uma economia de rede e aglomeração CIM no âmbito de um polo criativo que monitorize a aplicação das medidas de política e a sua efetividade, os seus efeitos externos positivos e negativos, bem como a formação e repartição das novas cadeias de valor no espaço interno e externo das CIM.
Finalmente, é necessário elaborar sobre o valor cénico do território CIM e ensaiar uma espécie de coreografia territorial através de uma estratégia apropriada de marketing digital, em exclusivo ou em articulação com outras CIM, e indicar os embaixadores do território CIM, os porta-vozes da distinção territorial, da sua imagem de marca e destino de eleição.
Nota Final
Em matéria de coesão territorial, sem uma conexão inteligente protagonizada por um ator-rede-dedicado que cuide dos bens e serviços comuns da Comunidade Intermunicipal, não teremos resultados nem menor vulnerabilidade territorial. Doravante, as tecnologias digitais serão um poderoso instrumento de governação territorial, mas elas terão de fazer prova de vida in situ e não apenas ex situ sob pena de a tão propalada coesão territorial ser pouco mais do que um logro. E, a terminar, uma sugestão: por que não, em cada CIM, uma escola de artes e tecnologias à semelhança das antigas escolas industriais e comerciais do século XX? E por que não aproveitar o especial networking das instituições de ensino superior que estão particularmente vocacionadas para poderem funcionar como instituições-plataforma, pois podem funcionar em canal aberto com a multidão, como uma placa giratória de problemas, projetos e colaboradores, em múltiplas formas e formatos de crowd sourcing, crowd learning e crowd funding?





