
Por: João Grazina Santos
Membro Efetivo nº16897
Num mundo onde o capital e a tecnologia fluem sem fronteiras, o talento emerge como o recurso mais escasso e valioso. Para os economistas, esta afirmação adquire uma dimensão particular. Não apenas como analistas deste fenómeno, mas como agentes ativos num mercado de trabalho globalizado. A questão que se coloca é tão simples quanto perturbadora: onde fazemos a diferença?
A geografia do talento deixou de ser um acaso. O economista Richard Florida, pioneiro no estudo da “classe criativa”, identificou três pilares fundamentais para a atração e retenção de pessoas com elevado capital humano: Tecnologia, Talento e Tolerância. A aplicação destes critérios ao território português revela um país a várias velocidades, onde a capacidade de captar economistas e outros profissionais qualificados se concentra em polos muito específicos, em detrimento de vastas regiões do interior.
O Peso dos 3T’s na Decisão do Economista
Quando um jovem economista decide onde construir a sua carreira, raramente o faz por acaso. A decisão é ponderada por fatores que ultrapassam a mera tabela salarial. A existência de um ecossistema de inovação, onde universidades, centros de investigação e empresas interagem, é crítica. As áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, e a região do Algarve Turístico, afirmam-se como os principais “clusters criativos” nacionais, segundo estudos recentes. Nestes territórios, a oferta de emprego qualificado, a conectividade internacional e a densidade institucional criam um ciclo virtuoso de atração.
No entanto, estes benefícios têm um custo. A pressão sobre o mercado imobiliário, o congestionamento urbano e o custo de vida elevado são os subprodutos do sucesso. Esta realidade, por si só, já está a redefinir o mapa de atração do talento, com cidades médias e regiões menos saturadas a começarem a ganhar protagonismo.
A Armadilha do Desenvolvimento: Quando o Talento Emigra
O reverso da medalha é dramático. A OCDE e a Comissão Europeia têm alertado para o risco de “armadilha de desenvolvimento de talentos” em regiões como o Norte e o Interior do país. Em termos práticos, trata-se de um ciclo perverso: a falta de oportunidades para profissionais qualificados leva à emigração jovem (69% da emigração permanente em 2022 era de jovens); esta fuga de talento desincentiva o investimento privado em atividades de maior valor acrescentado, mantendo os salários baixos e perpetuando a falta de oportunidades.
Para o economista, a decisão de permanecer ou partir deixa de ser individual para se tornar sistémica. O nosso papel enquanto classe profissional não é apenas o de
interpretar este fenómeno, mas o de atuar sobre as suas causas. A geografia do talento é, em grande medida, o resultado de escolhas políticas e económicas, e os economistas têm a responsabilidade de as informar criticamente.
Uma Agenda para o Futuro
A questão de partida “Onde farão a diferença os economistas?” admite, assim, múltiplas respostas. O economista pode e deve fazer a diferença nos centros de decisão, onde se desenham políticas de inovação e se gere o investimento público. Mas o seu contributo é igualmente decisivo nos territórios de baixa densidade, onde a capacidade de diagnosticar problemas e desenhar soluções adaptadas ao contexto local é frequentemente escassa.
A próxima geração de economistas enfrentará o desafio de repensar a atratividade regional. Não se trata apenas de criar “pólos tecnológicos” deslocalizados, mas de investir nas condições que fixam pessoas: habitação acessível, serviços públicos de qualidade, cultura e tolerância. É neste equilíbrio entre o global e o local, entre a análise macro e a intervenção micro, que a nossa profissão afirmará a sua relevância.
O talento existe em todo o lado. O que a geografia do talento nos ensina é que ele floresce onde o ambiente é preparado para o receber. Cabe aos economistas, enquanto especialistas na alocação de recursos escassos, liderar a construção desses ambientes. E, nesse processo, faremos a diferença onde quer que estejamos.





