A evolução?

Por: René Cordeiro

Membro Efetivo nº56

Como sabemos, a economia normativa ocupa-se de julgamentos éticos e valorativos ― o que deve ser (nível da inflação, dos impostos ….)―, enquanto a economia positiva ― dedicando-se à observação para descrever factos, circunstâncias, relações, tendências ― interessa-se pelo conhecimento das causas. Consequentemente, ocupa-se metodologicamente da análise de problemas potenciais procurando prevenir as causas que produzam efeitos nefastos.

Assim sendo, parece-me poder concluir-se que é a economia positiva que, tendo em conta objectivos a prosseguir, indicará as regras a estabelecer relativamente às situações potenciais que ponham em causa a prossecução daqueles objectivos. Parto do pressuposto de que estes curam do futuro da nação. Logo, do interesse dos portugueses.

Como todas as regras, haverá as que satisfazem o consumidor e desagradam ao fornecedor, as que confortam o comprador e desgostam o vendedor. Mas, mesmo neste caso, sabemos que o argumento do vendedor vence sempre, principalmente em contexto de economia pull, utilizando dois instrumentos ― o efeito de aura e o mimetismo que lhe está associado ― que influenciam o comportamento humano, empregando a publicidade como meio de persuasão exponenciada pelo digital. Para não recorrer a conhecidos exemplos ligados ao comércio, revisitei Z. Brzezinski em O Grande Tabuleiro de Xadrez, 1997, do qual traduzo: Tudo o que anteriormente referi é reforçado pelo massivo, mas intangível, impacto do domínio norte-americano nas comunicações globais, no entretenimento popular e na cultura de massas … A cultura de massas exerce um magnético apelo, especialmente no meio da juventude … Os programas de televisão norte-americanos e os filmes representam cerca de três quartos do mercado global … A música popular norte-americana domina igualmente, enquanto as modas passageiras, os hábitos alimentares e até o vestuário são crescentemente imitados pelo mundo fora … Políticos de culturas tão diferentes (por exemplo, o Primeiro Ministro Japonês Ryutaro Hashimoto, e o Primeiro Ministro Tony Blair ―note-se o “Tony” imitativo de “Jimmy” Carter, “Bill” Clinton ou “Bob” Dole) acham perfeitamente apropriado copiar os maneirismos de Bill Clinton, o comum popular toque físico, e as técnicas de relações públicas. E, acrescento, o vocabulário com claro prejuízo da boa utilização da nossa língua.

Cito, do último texto que publiquei cada vez mais, mais indivíduos ignorantes mas cada vez mais capazes de fazer o que for necessário ― para tanto sendo bastante clicarem ― produzindo um resultado que outros pensaram como produzir. Estes recolhem o dinheiro todo. Aqueles querem ter salários mais elevados e ainda não perceberam que não podem ter. Assim nasce e se desenvolve uma economia decorrente daquelas características, difícil de controlar porque promovida pelo liberalismo dos costumes e jogando com o conhecimento do comportamento humano. 

Esta afirmação encobre um outro fenómeno: o da “dissolução” da divisão de trabalho tal como o conhecemos. Este conceito, assente na especialização de tarefas, gerador de acréscimos de eficiência, de produtividade, permite, entre outras coisas, o aprofundamento de profissões exercidas e o seu desenvolvimento, conduzindo a diferentes níveis de remuneração de acordo com a utilidade que a sociedade lhes reconhece e com a dinâmica da (sua) Procura e da (sua) Oferta. A situação actual, crescentemente dominada pelo digital e alavancada pela IA (de)generativa uniformiza ― por nivelamento horizontal ― necessidades de conhecimento da maioria através do “saber clicar”, conduzindo ao nivelamento, por baixo, das remunerações do trabalho. Até profissões altamente especializadas (como as do âmbito da engenharia e da medicina) parecem não escapar à tendência.

Por outro lado, a desregulação financeira, com a correspondente livre circulação de capitais que alimenta, no essencial, o digital e a IA, assegura-lhes os meios financeiros necessários ao seu crescimento vertiginoso garantindo aos seus detentores elevados ganhos de curto prazo. Porque o grupo dos impulsionadores, dos donos, do digital/IA controla os recursos do “que fazer” ―a estratégia ― dizendo à maioria dos cidadãos que lhes basta clicar para saber o “como fazer” ― as operações. Libertando a maioria do esforço da aplicação em aprender e praticar “subir a montanha” (da vida), porque sem esforço ela caminha pela “planície” (das facilidades, escorregando para facilitismos, do recreativo), bastando clicar para obter qualquer informação de que pontualmente careça e de que rapidamente se esquecerá. Então, voltará a clicar.

Termino como comecei: Assim sendo, parece-me poder concluir-se que é a economia positiva que, tendo em conta objectivos a prosseguir, indicará as regras a estabelecer relativamente às situações potenciais que ponham em causa a prossecução daqueles objectivos. Parto do pressuposto de que estes curam do futuro da nação. Logo, do interesse dos portugueses.

 

 

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