A economia política e a governação do ecossistema de IA

Por: António Covas

Membro Efetivo nº638

De um ponto de vista analítico, julgo útil a distinção entre a economia política da cadeia de valor da IA e a economia política do ecossistema da IA. No primeiro caso, vamos subir na cadeia de valor da IA e explicitar os elos principais da cadeia. No segundo, vamos em busca das hiperligações contextuais e conjunturais mais sensíveis do ecossistema de IA.

A economia política da cadeia de valor da IA

Em primeiro lugar, a montante da cadeia de valor, temos a infraestrutura física e os recursos: estamos a falar de quatro elementos poderosos com forte impacto geopolítico, a saber, os cabos submarinos e a fibra ótica (1), os minerais críticos e as terras raras (2), a energia (3) e os recursos hídricos (4). Em segundo, e subindo na cadeia de valor, temos o hardware e os processadores avançados, ou seja, os semicondutores e os chips avançados. Em terceiro, temos as infraestruturas de alojamento e processamento, ou seja, data centres, redes de servidores e computação em nuvem para treino, armazenamento e processamento de grandes volumes de dados, mas, também, sistemas de refrigeração e reciclagem de resíduos. Em quarto, os modelos fundacionais e os modelos de linguagem da IA generativa, ou seja, a arquitetura dos modelos de IA, mais gerais os fundacionais e mais textuais os LLM (large language models). Em quinto, temos as aplicações e os serviços finais, ou seja, o software e os dispositivos que estão na posse dos utilizadores finais. Em sexto, esta descrição da cadeia de valor oculta a outra face da moeda, ou seja, o complexo de fatores sistémicos e conjunturais que transforma a analítica da IA num exercício problemático. Estamos a falar de fatores logísticos situados em geografias distantes, geopolíticos (a coerção política é, por vezes, necessária), financeiros (o capital de risco está mal distribuído), ambientais (as cargas elétricas e os recursos hídricos suscitam oposição), cibersegurança (ataques informáticos e ciberataques), até fatores conjunturais críticos, por exemplo, os desastres naturais.

A economia política e as hiperligações do ecossistema da IA

As questões acerca do funcionamento da cadeia de valor da IA são inúmeras. Vejamos algumas com impacto nas hiperligações do ecossistema da IA.

Em primeiro lugar, a capitalização intensiva de toda a cadeia de valor de IA coloca-a na área de influência dos grandes fundos de capital de risco e a sua financeirização pode conduzi-la a uma bolha de especulação bolsista altamente instável.

Em segundo lugar, a instabilidade geopolítica da cadeia de valor de IA e da sua logística global pode pôr em causa a soberania de alguns Estados e a sua autonomia estratégica. O valor estratégico das comunicações por satélite e a segurança de um país não podem depender de decisões tomadas fora do seu controlo. O programa Galileu da União Europeia de 1999 e a decisão recente de 2022 de aprovar o programa IRIS2 – infraestrutura para a resiliência, a interconectividade e a segurança por satélite – visam, precisamente, prevenir a segurança das comunicações soberanas.

Em terceiro lugar, a oligopolização da fileira tecnológica aproxima os grandes conglomerados do complexo tecno-militar e da estratégia de autonomia de segurança geoestratégica do Estado nacional. Como se comprova no caso da ideologia regulatória as grandes potências reservam-se o direito de salvaguarda do segredo de Estado e sempre que tal se afigurar necessário.

Em quarto lugar, uma nova geração de infraestruturas críticas, algumas de uso duplo, significa que as tecnologias digitais têm doravante uma aplicação horizontal, ou seja, está ultrapassado o modelo silo vertical da era industrial e aberto o modelo rede ou plataforma da era tecno-digital.

Em quinto lugar, uma nova economia dos impactos e das externalidades da IA é uma área da maior importância para a nova economia política, pois, um setor que consumirá imensa energia e recursos hídricos, afigura-se como um terreno de muitos equívocos e bastante polémica no que diz respeito às práticas de sustentabilidade fraca e forte da política de ambiente.

Em sexto lugar, uma nova economia política dos mercados de trabalho e do capital humano será, doravante, um terreno de muita confrontação política e social e um lugar onde a negociação corporativa da chamada concertação social será posta à prova, com um destaque especial ao papel do ensino politécnico e às políticas de literacia tecno-digital nas medidas de adaptação aos mercados de trabalho.

Em sétimo lugar, vamos precisar de um modelo de criatividade geral para a cadeia de valor da educação, ciência, tecnologia, arte e cultura, à semelhança do modelo de linguagem da IA, pois estamos a falar de uma infraestrutura crítica da maior importância e de uma verdadeira revolução nos modelos verticais e no sistema de educação da era industrial.

Em oitavo lugar, esta é talvez a maior oportunidade para testar os princípios de soberania, equidade e coesão territorial relativamente aos territórios mais remotos e esquecidos, isto é, as redes e plataformas com o apoio dos modelos de IA, ao encolherem o espaço e o tempo das soluções, convidam-nos a reconsiderar os objetivos e as funcionalidades da economia política dos territórios mais vulneráveis.

Em nono lugar, a centralidade das questões regulatórias e o papel da IA no redesenho dessa constelação de políticas públicas: dado o carácter sistémico das questões de regulação todos nós esperamos que esta política pública faça ganho de causa com os modelos avançados de IA e que, desta vez, seja a própria União Europeia a aprender com os novos modelos de linguagem e criatividade geral.

Finalmente, a transparência da esfera pública e a deliberação democrática, aqui os impactos diretos e as externalidades são imensos e vão desde o lugar ocupado pelos algoritmos dos modelos de linguagem e sua estrutura de lobbying até uma nova governança pública e um arranjo sociopolítico mais ousado do ponto de vista da deliberação democrática.

Uma nota final. Esta dupla abordagem, cadeia de valor e ecossistema, foi prosseguida com o propósito de mostrar como caminhamos para uma constelação na qual as plataformas de IA tenderão a integrar, simultaneamente, infraestruturas, produção industrial, logística, cadeias globais, hard e software. Além disso, o institucionalismo algorítmico destas plataformas irá conduzir-nos até às guerras institucionais do século XXI que porão à prova a nossa paciência democrática assim como a própria deliberação democrática. A governação da IA será, portanto, uma das grandes disputas de soberania deste século. Em julho passado, foi criada em Xangai a WAICO, uma organização mundial de cooperação em IA com o Alto Patrocínio do presidente chinês.  As democracias ocidentais não subscreveram o acordo. Fica registado.

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