A Europa está presa entre duas verdades incómodas, e fingir que não estão lá já não funciona

Por: João Grazina Santos

Membro Efetivo nº16897

Há momentos em que a economia europeia parece viver numa espécie de negação coletiva. Discutimos inflação como se fosse um fenómeno passageiro, falamos de crescimento como se estivesse apenas “temporariamente baixo” e continuamos a tratar a política monetária como se fosse o único volante capaz de conduzir o continente. Mas a verdade é outra, e é bem menos confortável: a Europa está presa entre duas verdades incómodas, a de que os seus problemas são estruturais e a de que continua a agir como se fossem conjunturais.

A inflação não desapareceu. A economia não acelera. E o BCE já não tem como resolver sozinho o que se tornou estrutural. Os números são claros: a inflação ronda 3,4%, longe da meta e teimosamente resistente. O BCE, em vez de cortar taxas como muitos anteciparam, voltou a subir para 4,25%. Não por capricho, mas porque a Europa continua a enfrentar pressões que não se resolvem com comunicados ou promessas políticas. Energia cara, dependência tecnológica, tensões geopolíticas, escassez de competências, tudo isto empurra preços para cima e crescimento para baixo.

O problema é que a Europa está a tentar combater desafios do século XXI com ferramentas do século XX. A política monetária foi desenhada para lidar com ciclos económicos, não com transições civilizacionais. O BCE pode controlar o preço do dinheiro, mas não consegue acelerar a inovação, reorganizar cadeias de valor, corrigir a demografia ou reduzir a dependência externa. A Europa insiste em pedir ao banco central aquilo que só a política económica pode fazer, e depois finge surpresa quando os resultados não aparecem.

Esta dissonância entre diagnóstico e ação tornou-se o traço dominante da governação europeia. A União Europeia sabe que enfrenta uma década decisiva, marcada pela transição energética, pela digitalização, pela competição tecnológica global e pela redefinição das alianças estratégicas, mas continua a responder com o reflexo burocrático de sempre: comissões, relatórios, consultas públicas e metas que raramente se traduzem em execução concreta.

Portugal vive este dilema com intensidade própria. Cresce acima da média europeia, cerca de 1,5%, mas continua vulnerável a qualquer vento contrário. A dívida pública, ainda perto de 95% do PIB, limita a capacidade de resposta. O desemprego jovem, em torno de 11%, mostra que o mercado de trabalho continua a falhar onde mais importa. E a produtividade, essa eterna pedra no sapato, impede que o país transforme crescimento conjuntural em progresso estrutural. A economia portuguesa tornou-se especialista em sobreviver, mas não em transformar-se.

A verdade é que a Europa perdeu a capacidade de decidir com rapidez. A fragmentação institucional, a lentidão regulatória e a obsessão por consensos impossíveis criaram um continente que reage tarde e mal. Enquanto isso, Estados Unidos e China avançam com estratégias claras, investimento massivo e prioridades definidas. A Europa discute. Os outros fazem.

Nos EUA, a política industrial regressou sem pudores: o Inflation Reduction Act e o CHIPS Act representam milhares de milhões de dólares em incentivos diretos, com objetivos explícitos de reindustrialização, autonomia tecnológica e liderança energética. Na China, o Estado coordena investimentos, orienta setores estratégicos e ajusta políticas com uma velocidade que a Europa nem sequer consegue imitar. Não se trata de copiar modelos, mas de reconhecer que o mundo mudou, e que a Europa continua a agir como se tivesse tempo infinito.

A pergunta que importa é simples: quanto tempo mais vamos fingir que a política monetária pode substituir a política económica? O BCE está a fazer o que pode, mas já não é suficiente. A Europa precisa de uma estratégia que vá além da inflação e das taxas de juro. Precisa de investimento público orientado, de reformas administrativas sérias, de políticas industriais realistas e de coragem para assumir que o modelo atual já não serve.

A transição energética exige mais do que metas climáticas; exige redes elétricas modernas, capacidade de armazenamento, produção industrial de tecnologias verdes e uma estratégia para matérias-primas críticas. A digitalização exige mais do que regulamentação; exige infraestrutura, talento, investigação aplicada e empresas capazes de competir globalmente. A demografia exige mais do que debates sobre imigração; exige políticas de natalidade, integração, qualificação e retenção de talento.

A Europa tem recursos, conhecimento e instituições. O que lhe falta é direção. Falta-lhe a capacidade de assumir que a estabilidade deixou de ser garantida e que continuar a agir como se fosse é o maior risco que o continente enfrenta. Falta-lhe a coragem política para abandonar a ilusão de que tudo se resolve com pequenos ajustes. Falta-lhe a ambição de pensar em décadas, não em ciclos eleitorais.

Portugal, inserido neste contexto, enfrenta uma escolha semelhante. Pode continuar a gerir o curto prazo, celebrando crescimentos modestos e metas orçamentais, ou pode assumir que precisa de uma estratégia de transformação profunda: produtividade, inovação, qualificação, simplificação administrativa e uma política industrial que não tenha medo de escolher prioridades. O país não pode depender eternamente de turismo, serviços de baixa intensidade tecnológica e investimento externo volátil.

A Europa está num ponto de viragem. Ou reconhece as suas duas verdades incómodas, que os problemas são estruturais e que o tempo está a esgotar-se, ou continuará a deslizar lentamente para a irrelevância económica. O BCE está a fazer o que pode. O que falta é tudo o resto.

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