
Por: Jorge Fonseca de Almeida
Membro Conselheiro nº1083
Os recentes resultados do PISA – um estudo internacional levado a cabo em 91 países e cobrindo as áreas da Leitura, Ciência e Matemática – vieram deitar um balde de água gelada na retórica da “geração mais qualificada de sempre” uma palavra de ordem propagandística destinada a desqualificar as gerações mais antigas e a desmoralizar as nova gerações (porque a geração mais qualificada de sempre, e sempre incluiu o futuro – já passou) e mostrar que presunção e água benta cada um toma a que quer. Os jovens portugueses sabem cada vez menos e muitos nem têm as ferramentas mínimas necessárias para sobreviver na sociedade atual quanto mais na que o futuro nos reserva. Estes resultados são já uma condenação antecipada a um subdesenvolvimento prolongado, ao alastramento de setores de mão-de-obra desqualificada e barata (como o turismo) e à estagnação da produtividade.
A incapacidade de reverter a situação começou logo que publicados os resultados. Uns porque se negam a ver as evidências e aceitam a situação como inevitável fruto de acontecimentos que não controlam (pandemia, emergência da Inteligência Artificial, etc.), como se esses não fossem comuns a todos os países. Outros porque não veem as razões desta situação e as remetem para causas superficiais e conjunturais (suspensão de alguns exames, etc.). Não acertando no diagnóstico, não podem acertar na solução.
Vejamos os resultados: em termos de índice agregado, nos primeiros lugares temos Singapura, China, Japão, Taiwan, Coreia do Sul, Hong Kong, tudo países asiáticos. A economia mundo centra-se hoje por essas bandas. Aí encontramos as fontes de inovação e crescimento. Aí os alunos aprendem e preparam-se. Atrás deste grupo temos os ocidentais: Estónia, Canada, Irlanda, Suíça, Austrália, Finlândia, Nova Zelândia, Reino Unido. A maioria destes países não pertencem à União Europeia. Depois surgem a Polónia, a República Checa, a Dinamarca, os Estados Unidos, a Suécia, a Bélgica, a Áustria, aqui encontramos os países nórdicos, que durante anos lideraram estas classificações e que fruto das políticas de austeridade estão agora a cair desamparadamente nos rankings internacionais (a Polónia e a República Checa ultrapassaram a Dinamarca e a Suécia!).
Vários países da UE quedam-se abaixo de estados latino-americanos e do médio oriente. Um desastre da política europeia de austeridade e de reorientação dos fundos públicos das famílias para o subsídio irracional ao setor empresarial. A situação vai agravar-se com a retirada, em curso, de fundos públicos dos setores sociais para os investir no domínio militar. No mundo do conhecimento o desinvestimento na educação vai repercutir-se em perda de produtividade e, consequentemente, de competitividade nos mercados internacionais.
Portugal, cujos resultados recuam 20 anos, prepara-se para ser ultrapassado pelo Vietname e pela Turquia. A Turquia já está à nossa frente em Matemática. A nossa posição queda-se em torno da média dos 91 países.
No rol de causas deste dramático insucesso escolar português ninguém parece reparar no elefante na sala, a causa maior e principal, focando-se quase todos no insignificante, no supérfluo. O elefante tem nome, face, e história. Responde pelo nome de Troika, o rosto de Passos Coelho e a sua história conhecida: cortes orçamentais, redução de milhares de professores, desinvestimento em infraestruturas educativas e empobrecimento social.
Esta política de afundamento nacional, não revertida pelos governos do PS, traduz-se atualmente em largas dezenas de milhares de alunos contínua ou intermitentemente sem professores ao longo do ano letivo, em aulas ao frio, em alunos com fome que só comem a refeição escolar, em alunos sem computador porque as famílias receiam ter de pagar, porque não têm dinheiro, se a criança/jovem acidentalmente o estragar. Traduz-se em escolas sem recursos e impreparadas para o multiculturalismo contemporâneo, sem conseguir acolher alunos que não dominam o português, em escolas em que alunos com necessidades especiais profundas partilham a mesma turma dos outros alunos, obrigando o professor a dispersar-se sem conseguir ensinar a uns (porque não tem a formação adequada) nem a outros (porque tem de acompanhar os primeiros).
Passos Coelho aconselhou os professores a emigrar, o que estes efetivamente fizeram em grande número. Mais recentemente, sem professores habilitados, o Governo Montenegro decidiu prescindir das habilitações e aceitar como professor qualquer individuo com uma licenciatura de três anos. Os professores mais antigos, abandonados, vendo o seu tempo de serviço não contado, sentindo-se esquecidos, atacados, reformam-se aos milhares ou entram de baixa, sem que sejam substituídos. Professores desmotivados não ensinam bem. Os jovens professores são precários, mudam de escola anualmente, ficam com as turmas mais difíceis. Toda uma política de recursos humanos errada.
Os conteúdos racistas (sobre a escravatura, com a negação do racismo contemporâneo e o apagamento do papel dos Negros e Ciganos na História de Portugal, etc.) afastam os alunos racializados, os conteúdos de extrema-direita (exaltação nacionalista, revisão da História da II Grande Guerra, confusão entre nazismo e socialismo, etc.) afastam os alunos humanistas e mais inteligentes. Instala-se uma atitude acrítica e uma ausência de discussão sobre as matérias.
Ora é este elefante que atrasa os alunos portugueses. O efeito Troika/Passos Coelho.
O PISA mostra que não precisamos de exames nacionais para aferir o nível dos alunos. O PISA, com uma mostra de 750 mil alunos, consegue aferir um universo de 91 países. Com um teste sobre uma amostra significativa é possível ter uma visão da realidade portuguesa.
Podemos discutir tudo à volta da Educação, desde a introdução de exames no quarto ano, à enésima alteração curricular ou até à ideia de alterar os ciclos (fundindo o primeiro e o segundo para poupar nas instalações e no número de professores). Podemos introduzir exames digitais e lançar o caos nas escolas. Podemos privatizar a estrutura do Ministério da Educação. Podemos copiar, no papel, o modelo da Finlândia, que desceu nos rankings, ou o modelo de Singapura que os lidera. Mas sem resolver a questão principal, sem eliminar o efeito Troika/Passos Coelho, sem mais recursos dedicados à educação não sairemos da cepa torta.
A escolha cabe à nossa elite política e o histórico das suas decisões não é o melhor. É preciso uma alteração profunda.





