
Por: Susana Azevedo Meireles
Membro Efetivo nº16655
Durante décadas, a globalização económica assentou numa lógica de eficiência e otimização de custos. No entanto, a pandemia, a guerra na Ucrânia e a crescente fragmentação geoeconómica trouxeram a geopolítica de volta ao centro das decisões económicas, forçando uma mudança de paradigma. Mais recentemente, as tensões no Médio Oriente voltaram a evidenciar a exposição das cadeias energéticas e comerciais a choques externos. As interdependências económicas, antes vistas sobretudo como fator de eficiência e integração, passaram também a ser analisadas sob o prisma da segurança económica.
Acontece que o debate público sobre segurança económica se tem concentrado sobretudo na redução de vulnerabilidades externas. Contudo, para uma economia aberta como a portuguesa, a questão central poderá não ser apenas o grau de dependência, mas a coerência das interdependências associadas ao capital, ao comércio e aos setores estratégicos. A questão crítica não é “quanto” dependemos, mas “de quem” e “em que setores” essa dependência se manifesta.
Em Portugal, a estrutura do investimento estrangeiro e do comércio externo apresenta um padrão de coerência regional. Historicamente, o país tem mantido uma ancoragem sólida no espaço euro-atlântico, tanto na origem do capital como nos seus padrões de comércio externo. Esta simetria constitui um importante fator de estabilidade. No entanto, persistem assimetrias que merecem reflexão.
A presença significativa de capital chinês e, de forma mais ampla, de economias com menor alinhamento estratégico em setores críticos, como infraestruturas energéticas, representa uma exceção relevante a este padrão. Esta assimetria cria um desequilíbrio: ativos estratégicos nacionais encontram-se ligados a economias com peso relativamente reduzido enquanto parceiros comerciais. Num contexto em que a economia é cada vez mais utilizada como instrumento de pressão geopolítica, esta incoerência estrutural pode transformar-se numa vulnerabilidade silenciosa.
Neste novo enquadramento, a política económica não pode limitar-se à atração indiferenciada de investimento. Num contexto de crescente fragmentação geoeconómica, torna-se cada vez mais relevante uma lógica de curadoria das interdependências externas, capaz de avaliar de forma integrada capital, comércio, energia e infraestruturas estratégicas.
Ativos ligados ao mar, à logística portuária e à conectividade atlântica poderão assumir importância crescente para a posição geoeconómica de Portugal. A segurança económica dificilmente resultará de lógicas de autossuficiência. A robustez de uma economia aberta dependerá, sobretudo, da capacidade de compreender, estruturar e gerir estrategicamente as suas interdependências externas, preservando a autonomia estratégica nacional.
Artigo publicado na coluna mensal “Economia na Ordem” do Jornal Vida Económica.





