
Por: António Rebelo de Sousa
Membro da Direção da Ordem dos Economistas
À direita e à esquerda sempre existiram “europeístas cépticos” que, reconhecendo que o nosso país não tem alternativa à opção pela UE, têm tendência para produzir amarguradas críticas contra a falta de “comando da Europa” e, portanto, contra a ausência de unidade da própria UE, contra a excessiva burocratização da experiência integracionista europeia, contra os “excessos regulatórios”, nuns casos, contra o “seguidismo excessivo” em relação ao que apelidam de imperialismo americano, noutros casos, contra os excessos de uma cultura “ultra-liberal” nos usos e costumes que “grassa pela Europa fora”.
Esses “europeístas” descrentes tendem a ver em qualquer dificuldade de percurso um obstáculo intransponível, em qualquer Hungria um “beco sem saída”, em qualquer ameaça “trumpista” a inevitabilidade de fazermos, nós europeus, cedências, em qualquer afirmação mais belicista de Putin a condenação à negociação de uma paz “despida de Honra”, enfim julgam que o projecto europeu se vai, ao fim e ao cabo, reconduzir a um papel menor.
Com esses “europeístas” a Europa jamais irá longe.
A Europa começou o seu caminho integrador em 1957, criando uma Zona de Comércio Livre e uma União Aduaneira.
Com problemas que foram surgindo de permeio, construiu o Mercado Comum e, com muitas dúvidas e críticas, iniciou a edificação da União Económica e Monetária, a partir de 1990, e da celebração, em 1992, do Tratado de Maastricht.
Lembro-me de, em 1978, ter participado, com dois outros portugueses, em Bruxelas, numa Conferência intitulada de Table Ronde sur les Problèmes de l’ Europe. Eram Paulo Pitta e Cunha e Rui Vilar, sendo certo que entre os conferencistas estavam dois ilustres economistas, a saber, Pierre Uri e Pascal Salin.
Falou-se da possibilidade de Portugal integrar o projecto europeu e muitos dos presentes consideraram que o nosso país pertencia ao Terceiro Mundo.
Falou-se da moeda única, inclusive numa designação para a mesma que seria o EUROPA.
Mas, Pascal Salin suscitou problemas, falando da sua tese do “paralelismo” (i.e., da conciliação de uma moeda europeia com as moedas nacionais) e Pierre Uri falou da sua tese do “couronnement” (i.e., da necessidade de se dar prioridade à redução das disparidades de desenvolvimento regional).
Mas, volvidos uns anos, chegou-se à União Económica e Monetária e Portugal integra essa experiência.
E não será justo não se reconhecer que se reforçou o eixo federalista Europeu no decurso das últimas décadas.
Quem diria que a Europa e Zelensky conseguiriam resistir a Putin sem o apoio dos EUA?
Quem diria que a Europa, num contexto desfavorável, como o actual, estaria em condições de celebrar um Acordo de Comércio Preferencial com o Mercosul?
Quem diria que a Europa estaria em condições de celebrar um Acordo de Comércio Preferencial com a Índia?
A verdade é que, com as suas dificuldades, a Europa tem avançado.
E continua a apoiar a Ucrânia.
E está na maior Zona de Comércio Preferencial do Mundo. E continua, mal ou bem, a ser ouvida nos principais fora internacionais.
E é essa dinâmica – que não é, apenas, económica, é também histórica, política e cultural – que nos dá, ainda hoje em dia, a nós europeístas sinceros, a mesma “força interior” que o autor deste artigo experimentou, aos 19 anos de idade, quando visitou pela primeira vez, em 1972, o Edifício Berlaymont em Bruxelas.
A essa “força interior” chama-se esperança num projecto de liberdade, de desenvolvimento e de cidadania renascida.
Nem mais, nem menos…”





