
Por: João Grazina Santos
Membro Efetivo nº16897
A economia portuguesa apresenta-se, hoje, num quadro de notável estabilidade macroeconómica. Esta normalidade, porém, foi duramente conquistada e não deve ser confundida com uma missão cumprida. É, antes, uma plataforma frágil a partir da qual o país tem de definir uma nova ambição coletiva. O percurso recente é marcado por uma recuperação resiliente face a choques sucessivos, mas a análise dos dados revela uma bifurcação clara: consolidar um modelo que atingiu os seus limites ou embarcar numa transformação estrutural exigente.
A evolução dos últimos anos é positiva nos seus termos gerais. Depois do resgate financeiro (2011-2014) e da profunda recessão, Portugal conseguiu recompor os seus equilíbrios fundamentais. O défice orçamental foi controlado, situando-se em níveis historicamente baixos. A dívida pública, embora ainda elevada (perto de 100% do PIB), segue uma trajetória descendente sustentada. O sistema financeiro está consideravelmente mais robusto. O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) tem sido consistentemente acima da média europeia, atingindo 2.3% em 2023, num contexto global complexo. O desemprego caiu para cerca de 6.6%, um valor que não se via há duas décadas.
Este cenário macroeconómico aparentemente sólido, contudo, esconde fragilidades profundas que ameaçam a sustentabilidade do progresso. Para compreender esta dualidade, é fundamental ouvir uma análise especializada. Um economista com vasta experiência em políticas públicas e competitividade nacional aponta: “Vivemos um paradoxo perigoso. Celebramos a criação de emprego, mas esse emprego é, em grande medida, pouco produtivo e mal remunerado. O nosso modelo de crescimento continua excessivamente dependente de setores de baixo valor acrescentado e de dinâmicas externas, como o turismo e os fluxos de capital europeus. Enquanto a produtividade do trabalho – a verdadeira fonte da riqueza das nações – permanecer estagnada, estaremos a construir sobre alicerces de areia.”
Os dados confirmam esta perceção. A produtividade por hora trabalhada em Portugal continua a ser uma das mais baixas da União Europeia, representando cerca de 60% da média do bloco. O investimento empresarial em Investigação e Desenvolvimento (I&D) mantém-se insuficiente, um sinal claro da baixa intensidade inovadora do tecido produtivo, ainda dominado por micro e pequenas empresas. O crescimento recente foi, em grande parte, alimentado pelo forte desempenho do turismo (que gerou receitas recorde) e pela aceleração do investimento público através do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). São motores importantes, mas voláteis e incapazes, por si só, de assegurar uma convergência duradoura com os níveis de prosperidade da Europa mais desenvolvida.
A crise da habitação é o sintoma mais visível deste modelo esgotado. “Não se trata apenas de um problema social”, sublinha o especialista. “É um grave constrangimento económico. A escalada dos preços e das rendas está a estrangular a competitividade das cidades, a dificultar a atração de talento qualificado e a consumir o poder de compra das famílias. É o resultado previsível de uma economia que apostou fortemente no imobiliário como ativo, sem desenvolver com igual força setores produtivos de alto valor. Este desequilíbrio está a minar a coesão social e o potencial de crescimento futuro.”
O mercado de trabalho espelha esta contradição. A taxa de desemprego baixa coexiste com uma escassez generalizada de mão-de-obra em setores críticos e com uma precariedade endémica. O salário médio, apesar de alguns aumentos recentes, continua a ser dos mais baixos da Europa Ocidental, limitando o papel do consumo interno como motor robusto e sustentável da economia. Para além disso, o país enfrenta um duplo desafio demográfico: um envelhecimento acelerado da população e uma fuga contínua de jovens qualificados, o que compromete a base contributiva da segurança social e priva a economia do seu capital humano mais dinâmico.
Perante este cenário, quais são as perspetivas? A curto prazo, espera-se uma desaceleração suave do crescimento, influenciada pelo ambiente económico internacional menos favorável. O verdadeiro desafio, porém, é de médio e longo prazo. O especialista consultado é claro: “O momento atual é uma encruzilhada. Podemos escolher o caminho mais fácil, que é surfar a onda dos fundos europeus e do turismo, adiando reformas estruturais. Ou podemos escolher o caminho mais difícil, mas mais promissor, que é usar esta janela de oportunidade para uma reinvenção económica. Isto implica uma aposta decisiva na qualificação dos portugueses, na inovação empresarial e na especialização em nichos de excelência onde já temos vantagens comparativas, como as energias renováveis, o mar, a agroindústria de qualidade ou a tecnologia. O PRR não pode ser apenas uma fonte de financiamento; tem de ser o catalisador de uma nova estratégia de desenvolvimento.”
Em conclusão, a economia portuguesa alcançou uma normalidade que parecia impossível há uma década. Essa conquista é digna de registo e deve servir de base à confiança necessária para os próximos passos. No entanto, esta normalidade não é um destino, mas sim um ponto de partida. As perspetivas futuras dependem da capacidade coletiva de transcender um modelo de crescimento que já revelou as suas insuficiências e de embarcar num projeto nacional de modernização económica e social. O objetivo não deve ser apenas crescer, mas crescer melhor: com mais valor, mais equidade e mais resiliência. O tempo da simples recuperação acabou. Agora é o tempo da ambição fundamentada.





