BLOG da Ordem dos Economistas

Importância da correção e da clareza dos conceitos, sempre (parte 2)

Por: René Cordeiro

Membro Efetivo nº 56

(continuação do texto publicado em Maio)

     Apoio # 5”. Se alguma ideia, ou ferramenta, não faz sentido aos participantes, estes devem i) justificar a sua inutilidade ou, ii) não a utilizarem. Porque, se algo não faz sentido, outras coisas provavelmente não farão, também, sentido. Pelo que, insistindo no que não faz sentido, os participantes perderão o respeito pelo processo. Por exemplo, porquê marcas nas “folhas de registo” em vez de algarismos? Não é mais claro “4” do que IIII? Fazem algum sentido?

Através de uma série de exercícios simples demonstramos que as marcas são mais úteis do que os algarismos para efeitos de registo porque, não havendo necessidade de fazer adições, as marcas permitem facilmente estabelecer padrões. Por isso elas fazem sentido, sendo nossa responsabilidade demonstrá-lo, fazendo assim, também, sentido as “folhas de registo”.

      “Apoio # 6”. Se o conteúdo e o modo de uma ideia mudam em contextos diversos, os participantes devem aprender a identificar o que é, nesses contextos, constante.

O reconhecimento de padrões baseia-se em características inalteradas. Por exemplo, os participantes podem confundir-se perante uma diversidade de “folhas de registo”. Algumas terão diferentes títulos ou medidas. Alguns escolherão diagramas de Pareto, outros histogramas, outros gráficos de tendências, outros ainda, escalas. Se todas estas formas são “folhas de registo” deverá existir nelas alguma coisa de comum, algo que não muda. O que será? Bem, uma coisa é que todas estas “folhas de registo” conterão alguma coisa do género objectos, produtos, erros, coisas medidas com base em tempo, dinheiro … Outra coisa constante é a forma que deve permitir a comparação de um conjunto de dados com outro conjunto de dados. Uma vez identificadas e reconhecidas estas duas constantes, então qualquer “folha de registo”, não importa quão diferente, pode ser identificada e utilizada. Todavia, a responsabilidade da compreensão não é dos participantes, mas do “explicador” em tornar claras estas relações e aplicáveis durante o contexto da aprendizagem.

“Apoio # 7”. Deve evitar-se a “explicação vazia” que parece boa à superfície, mas é oca por dentro. Isto é, devem evitar-se falsas evidências, aparentemente reais. Se algo parece ter sido explicado mas, após verificação, os participantes revelam não ter compreendido, então a ilusão da inépcia será assumida: “talvez eu não seja suficientemente inteligente para compreender isto…”. Ao apresentarmos os diagramas de Pareto, esclarecemos a utilidade de gráficos de barras para esclarecimento da importância relativa. Explicamos que as “folhas de registo” são ineficazes ao compararmos entradas combinadas com outras entradas combinadas, e demonstramos a utilidade dos diagramas de Pareto versus percentagens para comparar e contrastar as combinações dos registos considerados. Afirmar simplesmente que o diagrama de Pareto é melhor do que outra forma de registo é uma explicação vazia. Mostrar que o diagrama de Pareto pode prover perspectivas que outras “folhas de registo” não permitem, e porquê, oferece uma explicação completa, “cheia”. A integração da racionalidade com a prática da capacidade conduz à drástica redução da probabilidade de ocorrência da ilusão de incapacidade.

     “Apoio # 8”. A fim de combater o vulgar “se não é nosso, então não presta”, há que demonstrar como ideias “velhas” estão frequentemente na vanguarda do processo técnico. Recordamos constantemente aos participantes que nada de novo existe à superfície da terra, particularmente quando nos defrontamos com a resolução de problemas. Enquanto a computação permite gerar e trabalhar grandes volumes de dados, apenas a mente humana é capaz de associar utilmente a informação. E apenas a mente humana experiente e com entendimento pode transformar a informação na sabedoria necessária para resolver problemas, de forma efectiva e eficiente. Por exemplo, os Gregos antigos afirmavam que para “resolver um problema é necessária informação sobre o mesmo a fim de fazer surgir, a priori, as suas causas possíveis e eliminar, a posteriori, causas impossíveis”. Em linguagem mais recente, a Enciclopédia de Inteligência Artificial de 1987 conclui: “ As condições C que entram na formulação de um problema podem ser utilizadas para influenciar as actividades de construção da solução de duas formas: testando, a posteriori, se uma solução candidata satisfaz C … e, a priori, restringindo o indutor de forma a minimizar as hipóteses de considerar soluções que não satisfaçam as condições”.

Os conceitos devem, pois, ser objecto de experimentação e de validação precisamente porque estas são a base de abordagens “modernas” à resolução de problemas e à melhoria da qualidade nas organizações. Trata-se, assim, de aplicarmos software humano amigo do utilizador, tal como aqueles que aplicam software na computação deveriam fazê-lo com mais frequência.

A instanciação é o termo dado à criação de exemplos concretos para demonstração, confirmação de conceitos abstractos. Experimente-se pedir a alguém que descreva uma escada de caracol sem utilizar as mãos e retiramos-lhe a capacidade de instanciação.

É por isso que a utilização de ícones ou de fotografias no processo de comunicação ajuda muito a compreensão de mensagens. Mas a aquisição correcta de conceitos tem de suportar-se em conceitos que o “explicador” domine – tal como uma casa carece de fundações sólidas – para que se eliminem, ou minimizem, as ilusões de conhecimento e as ilusões de incapacidade.

 

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