
Por: António Mendonça
Bastonário
Existem suficientes exemplos na História do pós-guerra em que a Europa se mostrou capaz de defender os seus próprios interesses, sem que isso tenha implicado qualquer quebra de relações e de solidariedade com o outro lado do Atlântico.
A semana que passou é uma expressão concentrada das transformações que estão a ocorrer no mundo, seja no plano mais geral da sociedade global, seja no plano mais regional ou local, como é o caso de Portugal.
No plano global acentua-se a deterioração, a todos os níveis, da relação entre a Europa e os EUA por causa da “operação especial de aquisição da Gronelândia”, lançada com toda a arrogância por Trump. Em contraponto, temos a assinatura do Acordo UE-Mercosul. Um acordo que pretende ir muito para além das meras relações comerciais, sendo evidente o desejo de a Europa enviar um sinal geopolítico forte de defesa do multilateralismo, num contexto de fragmentação global. No plano local, salientam-se os resultados da primeira volta das eleições presidenciais que ameaçam transformar-se numa bomba de fragmentação com efeitos retardados, sobre o sistema político-partidário nacional.
E se estes resultados eleitorais podem ser uma expressão das transformações económicas e sociais que se vêm operando no mundo ao longo das duas, três últimas décadas – que chegam com algum atraso a Portugal –, a agudização do conflito entre a Europa e os EUA traduz já a manifestação de uma nova qualidade no funcionamento dos mecanismos da governance global que faz desmoronar toda a arquitetura institucional construída pelos acordos do final da Segunda Guerra Mundial.
A este respeito, a incapacidade absoluta das instituições das Nações Unidas, para produzir uma intervenção minimamente consequente, a que acresce a reação até agora tímida e incorente da Europa à mudança estratégica americana, constituem fatores adicionais de preocupação a que importa dar uma resposta rápida e igualmente estratégica, antes que tudo se agrave ainda mais e venha a transformar-se em tragédia.
Olhar para a História é sempre um exercício obrigatório nestas fases de ruptura e de transformação estrutural, como aquela que estamos a viver. O exemplo do General De Gaulle de autonomização militar estratégica da França, incluindo o vetor nuclear defensivo, constitui uma referência para a Europa no momento atual. E a própria decisão de avançar para a integração económica, logo a seguir à segunda guerra mundial, não deixa de ser igualmente reveladora da elevada consciência e receio que os responsáveis europeus da altura já tinham sobre o que poderia vir a ser o papel da hegemonia americana no Mundo.
Consciência evidenciada igualmente por Keynes, ainda antes de terminar a guerra, nas negociações em Bretton Woods sobre a futura arquitetura do sistema monetário internacional, quando contrapõe a criação de uma moeda fiduciária internacional – o bancor – e de uma Câmara de Compensação Internacional – uma espécie de banco central dos bancos centrais – à proposta americana do dólar, como moeda de referência e de veículo de liquidez internacional, e do FMI como instituição de gestão financeira global. Propostas de Keynes que, apesar de não serem acolhidas, iriam constituir referência mais tarde, para a arquitetura do sistema monetário europeu, em 1979, e do euro, vinte anos depois.
Em resumo, existem suficientes exemplos na História do pós-guerra em que a Europa se mostrou capaz de defender os seus próprios interesses, sem que isso tenha implicado qualquer quebra de relações e de solidariedade com o outro lado do Atlântico. E não deixou de se reforçar económica e institucionalmente afirmando-se como referência e polo atrator de relações nos quatro cantos do mundo.
Citando o filósofo Bertrand Russell, “Conhecer o mundo real como ele é, e não como desejaríamos que fosse, é o início da sabedoria”.
In Jornal Económico – 23 de janeiro de 2026





