Da estupidez “inteligente”

Por: António Mendonça

Bastonário

Tal como nos anos 30 do século passado, nos dias que correm, a irracionalidade parece ter tomado conta da decisão política e dos comportamentos.

A expressão foi criada por Robert Musil (1880-1942), escritor austríaco modernista, num ensaio, intitulado “Da estupidez”, apresentado numa conferência em Viena em 1937. Uma análise magnífica e inteiramente atual da estupidez, enquanto fenómeno intelectual e social que é de leitura obrigatória para todos os que intervêm ou acompanham o fenómeno político e social atual.

Musil viveu numa época em muito semelhante à atual: uma época de profundas alterações económicas e sociais, de dimensão global, e com fortes expressões na esfera política, exprimindo-se numa crise profunda e multidimensional.

Tal como nos anos 30 do século passado, nos dias que correm, a irracionalidade parece ter tomado conta da decisão política e dos comportamentos, e parece querer encaminhar o mundo para uma situação, onde não se vislumbra qualquer saída positiva, mas antes o aprofundamento da incerteza e da impotência coletiva. E é, precisamente, neste contexto que Musil distingue uma estupidez “honesta e singela”, simples manifestação de razão débil ou de ignorância, de uma estupidez “inteligente” — uma estupidez sofisticada que se disfarça de racionalidade, competência ou progresso. No fundo uma pseudo-inteligência que frequentemente se associa a pessoas cultas, instituições e sistemas sociais e que pode influenciar decisões políticas, científicas e culturais, para objetivos irracionais ou destrutivos.

Meio século depois, em 1988, o historiador económico Carlo Cipolla (1922-2000) retoma o tema da estupidez com um ensaio, intitulado “As leis fundamentais da estupidez humana”, divulgado primeiramente entre académicos, em 1976. Um texto satírico, de natureza estatística e comportamental, estruturado em cinco leis fundamentais que explicam a distribuição e os efeitos da estupidez na sociedade.

É, simplesmente, magistral a representação gráfica que Cipolla faz dos dois fatores que, de acordo com a sua terceira lei, permitem definir os tipos de comportamento humano. Um plano cartesiano, com o eixo das abcissas a representar o benefício (+) ou o prejuízo (-) que as pessoas causam a si próprias e o eixo das ordenadas a representar o benefício (+) ou o prejuízo (-) que causam aos outros e à coletividade. No primeiro quadrante (+, +) encontramos os “inteligentes”, pessoas que conjugam comportamentos positivos para si próprios e para os outros. No segundo quadrante (-,+), posicionam-se os “desamparados”, aqueles que, prejudicando-se a si próprios, beneficiam os outros. No terceiro quadrante (-, -), situam-se os “estúpidos”, aqueles que pelas suas ações prejudicam os outros e a si próprios. E, no quarto quadrante (+,-), deparamo-nos com os “bandidos”, aqueles que, que obtêm benefícios próprios prejudicando os outros.

Mas, Cipolla vai mais longe na sua análise. Considera que a fração de estúpidos na sociedade é uma constante que se verifica em todos os estratos sociais, desde o absoluto ignorante ao laureado com o prémio Nobel, dos responsáveis políticos e económicos ao simples funcionário, “quer nos movimentemos em círculos de gente distinta ou nos refugiemos entre as tribos colecionadoras de cabeças da Polinésia”. E, mais ainda, o peso e influência desta constante irá sempre ultrapassar as nossas piores expectativas.

Embora diferenciadas na metodologia e estilo, as construções concetuais de Musil e Cipolla constituem, em conjunto, um referencial interessante e divertido para a reflexão sobre as dinâmicas sociais – em épocas de crise profunda, em particular. E a análise do papel do “bandido”, do segundo, não deixa de ir ao encontro do conceito de “estúpido inteligente”, construído pelo primeiro.

Falta compreender o papel da simples inteligência, se é que lhe resta algum papel nesta mudança de mundo e de referências que estamos a atravessar.

 

In Jornal Económico – 21 de novembro de 2025

Da estupidez “inteligente”

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