
Por: René Cordeiro
Membro Efetivo nº56
Como é possível comparar a “Revolução Industrial” à “Revolução Digital”?!
A minha interpretação das duas situações: a primeira, foi útil para o fabricante e para o utilizador ― o empregador/empregado; a segunda, foi útil, apenas, para o inventor e, eventualmente de início, para os que sofreriam das mesmas limitações.
Citando o mesmo autor: em 2017, Douglas Rushkoff ― que tinha sido o primeiro colunista de questões digitais no New York Times e autor de livros sobre os mesmos temas ― foi convidado a falar para cinco presidentes de corporações sobre os riscos e os efeitos da tecnologia que eles próprios tinham criado, aconselhando-os sobre como sobreviver num mundo pós-humano onde a inteligência artificial superasse o cérebro em destreza e em “neuroses”. E ainda que, em 2008, o conjunto de grandes servidores, a que se cola a designação irreal, mas aliciante, de “nuvem”, produzia dois por cento das emissões de CO2, esperando-se a duplicação deste valor em 2020.
Li, algures, que o consumo de electricidade dessa “nuvem” em 2024 rondava os vinte e cinco por cento do consumo total.
E não me deterei a elaborar sobre o colonialismo em que o digital nos coloca e o imperialismo decorrente do controlo informático ― o tecnopólio digital como se lhe referiu Neil Portman, nos anos 70!
Tudo isto a propósito da digitalização do mundo e do critério de facilidade (não de simplicidade) que lhe está associado – que nos acorrenta cada vez mais a tudo o que é (aparentemente) rápido, imediato, esquecendo que só evitamos efeitos indesejados se prevenirmos as suas causas. Mas o caminho do pós-modernismo leva a não o fazermos e, seja por habituação ou porque haverá sempre uma solução técnica/tecnológica para “salvar” os humanos, os efeitos não nos levam a que para eles nos preparemos: basta que os aceitemos como caminho do progresso, sem questionarmos. Segundo Fredric Jameson, em Postmodernism or The Cultural Logic of Late Capitalism, «logo que a sociedade se encontra saturada de bens de consumo, não resta se não “dar-lhes estética”». Acrescento, com funcionalidades que facilitem ou agradem. Mas a facilidade, o agrado, devem produzir conforto aos destinatários. Aqueles, por motivos da saúde humana, devem ter limites.
Tudo é possível pela via de um sistema financeiro desregulado que deixou de estar ao serviço da economia – esta desenvolvendo-se segundo regras naturais de uma Oferta satisfazendo uma Procura assente em rendimentos reais – para alimentar artificialmente (porque com dívida) uma economia que tem de ir atrás. Com clara redução da qualidade ― que tem que ver com exigência. E que agrada aos decisores políticos, pela aparência de riqueza que transmite.
Assim, ficamos dependentes de tudo o que alimente o imediato, designadamente subsídios, facilidades, esquecendo-nos de que a dependência conduz à debilidade, ao enfraquecimento da capacidade mental e física de resistir e de fazer … do indivíduo e da sociedade. Mas tenho de admitir, pela observação, que a dependência é desejada pela maioria de nós que vivemos, a maior parte do tempo, no «sistema 1» de Kahneman: os nossos cérebros são bons a enfrentar problemas imediatos – que exigem uma abordagem automática, intuitiva – sentindo-se pouco à vontade para o pensamento a longo prazo – que exige reflexão, separação da complexidade nos seus elementos mais simples: exige esforço. Dependência que exige muita publicidade porque, recorda-nos o economista Daniel Cohen em Homo Numericus – La “Civilization” Qui Vient, Sam Parker, que presidiu ao Facebook, não hesitou em admitir que a empresa não procurava outra coisa que explorar a vulnerabilidade da psicologia humana.
Assim, os efeitos decorrentes do que exponho são, em geral, deficientes preparações para produção de resultados individuais e sociais precavendo o devir, e mentalidades formatadas pelo hedonismo – com o consumo (o presente) como valor de vida e a poupança (o futuro) como desnecessária: o Estado Providência tudo resolverá (sem as pessoas se preocuparem em saber se este Estado é socialista ou outra qualquer ideologia. Mas queixam-se!), dispensando o indivíduo da consciência do esforço próprio para a satisfação de necessidades e desejos pessoais e de necessidades comunitárias.
Acredito que devemos cuidar das nossas capacidades mentais e das aptidões manuais que se adquirem e desenvolvem de geração em geração, com o esforço e a dedicação que o desenvolvimento exige. Porque as faculdades associativas decorrem do modo como a memória aprende.
E só cuidamos se estivermos atentos. Pois respiramos automaticamente, autonomamente, o que conduz a não maximizarmos a oxigenação dos pulmões e, portanto, a sua capacidade respiratória. Pensamos do mesmo modo, não alimentando o cérebro com as faculdades necessárias, de cálculo e de memória, o que conduz a não maximizarmos a sua capacidade mental ou cognitiva. Assim, pensar (e falar) depressa, automaticamente, como ocorre no digital, não pode produzir o mesmo resultado que se obteria pensando (e falando) devagar.
É assim que vemos tarefas substituídas por instrumentos que retiram relevância às faculdades associativas e à memória por levarem a que estas se tornem desnecessárias. Recorrendo novamente a Juan Villoro, escrevendo em itálico a minha adaptação de um seu pensamento, utilizar um equipamento para fatiar 2.000 pepinos para um banquete, é inteligente. Utilizar um equipamento que nos conduz a não utilizar o cálculo e a memória, é suicídio. É menorização das faculdades humanas. Assim se massifica a “igualdade”, desta forma generalizando-se a ignorância: cada vez mais, mais indivíduos ignorantes mas cada vez mais capazes de fazer o que for necessário, para tanto sendo bastante clicarem, produzindo um resultado que outros pensaram como produzir. Estes recolhem o dinheiro todo. Aqueles querem ter salários mais elevados e ainda não perceberam que não podem ter.
O argumento do vendedor, tal como o canto da sereia, a todos encanta.





