
Por: João Grazina Santos
Membro Efetivo nº16897
O conceito de reglobalização – a reorganização das cadeias de valor com base em critérios de segurança e resiliência, além do custo – está a moldar decisivamente o presente económico português. Num contexto de inflação moderada mas persistente e de abrandamento do crescimento europeu, Portugal enfrenta uma encruzilhada estratégica. Os efeitos não são uma mera projeção; já são palpáveis.
A principal oportunidade concreta materializa-se no setor energético. A aposta no hidrogénio verde e renovável, com megaprojetos anunciados para Sines, posiciona Portugal no mapa europeu da autonomia energética. Este movimento atrai investimento (nacional e estrangeiro) para uma nova cadeia de valor industrial, desde a produção ao transporte, respondendo diretamente ao “nearshoring” energético da UE. Do mesmo modo, o setor automóvel, crucial para as exportações, beneficia da relocalização europeia de fornecedores, exigindo uma rápida adaptação à eletrificação.
Contudo, os desafios imediatos são significativos. A economia portuguesa, fortemente dependente de importações, sente na estrutura de custos a pressão de cadeias de abastecimento ainda reconfiguradas. A inflação de serviços e a estagnação do poder de compra limitam o potencial do mercado interno. O grande risco é a estagnação da produtividade. A reglobalização premia economias ágeis, com mão-de-obra qualificada e infraestruturas digitais robustas. Aqui, o atraso no investimento em capital físico e humano pode condenar Portugal a um papel secundário, mesmo na relocalização europeia. O IDE pode privilegiar a Espanha ou a Europa de Leste, deixando Portugal numa posição periférica se não houver uma oferta competitiva e diferenciada.
O turismo, pilar da recuperação pós-pandemia, é agora um setor de dupla face. A sua resiliência é um amortecedor contra a recessão, mas a excessiva dependência torna a economia vulnerável a choques geopolíticos e a alterações nos padrões de consumo. A reglobalização, com suas tensões, pode redirecionar fluxos turísticos de forma imprevisível.
Em síntese, o momento atual exige uma transição acelerada. A reglobalização não é um tema de futuro; é o pano de fundo da governação económica de hoje. A consolidação das contas públicas é necessária, mas insuficiente. É urgente uma estratégia industrial clara, que conjugue os fundos europeus com reformas estruturais: simplificação administrativa radical, incentivos fiscais à inovação e ao upskilling, e uma aposta decisiva na logística e energias descentralizadas. Portugal tem ativos únicos – paz social, recursos naturais, posição geoestratégica –, mas precisa de os converter, com pragmatismo e velocidade, numa nova vantagem competitiva na geoeconomia que está a nascer. A oportunidade existe, mas o relógio não para.





