A Armadilha do Bom Serviço: Portugal entre o Turismo e a Ilusão Tecnológica

Por: João Grazina Santos

Membro Efetivo nº16897

Há um exercício que faço com os meus alunos no primeiro ano da faculdade. Peço-lhes que listem as dez maiores empresas portuguesas por volume de faturação. Depois, que identifiquem quantas delas pertencem ao sector tecnológico, à indústria de alto valor acrescentado, à investigação e desenvolvimento. O silêncio que se segue é a mais eloquente das respostas.

Portugal vive uma espécie de dupla personalidade económica. Olhamos para os discursos políticos, para as estratégias de desenvolvimento, para os programas eleitorais, e encontramos um país que sonha acordado com a inovação, com as startups, com a transição digital. Depois, olhamos para os números do INE, para a balança comercial, para a estrutura do emprego, e encontramos um país muito mais modesto: o país dos serviços, do turismo, da restauração, do alojamento local.

Esta tensão entre o que somos e o que gostaríamos de ser é o tema central da nossa economia.

O peso real dos serviços

Vamos aos dados. Em 2024, o sector dos serviços representava cerca de 75% do Valor Acrescentado Bruto da economia portuguesa e empregava perto de 70% da população ativa. O turismo, isoladamente, foi responsável por cerca de 15% do PIB e por um quarto das exportações nacionais. São números impressionantes, que nos colocam ao nível das economias mais terciarizadas da Europa.

Não há aqui nenhum juízo moral. O turismo trouxe divisas, dinamizou territórios, gerou emprego em regiões onde a indústria tradicional tinha desaparecido. A questão não é se os serviços são maus. A questão é se são suficientes.

Do ponto de vista do desenvolvimento económico, o problema estrutura-se em três níveis. Primeiro, a produtividade. O sector dos serviços, especialmente o turismo e o comércio, apresenta níveis de produtividade significativamente inferiores aos da indústria transformadora e, sobretudo, aos da tecnologia de ponta. Isto significa que, para gerar a mesma riqueza, precisamos de mais pessoas, mais horas, mais desgaste.

Segundo, a sazonalidade e a precariedade. O modelo assenta em picos de procura, contratos temporários, salários de subsistência. É um mercado de trabalho que não fixa talento, não gera carreiras, não permite planeamento de vida. O jovem que trabalha num hotel no Algarve durante o Verão e num restaurante na Serra da Estrela no Inverno não está a construir futuro. Está a sobreviver.

Terceiro, a vulnerabilidade externa. Uma economia dependente do turismo está dependente do rendimento disponível das famílias europeias, da paz geopolítica, da estabilidade cambial, das rotas aéreas. Uma crise num mercado emissor, uma pandemia, uma guerra nas portas da Europa, e o castelo de cartas abana.

O sonho tecnológico e a realidade do investimento

E a tecnologia? Nos últimos anos, temos assistido a um crescimento notável do ecossistema startup. Unicórnios como a Farfetch, a OutSystems, a Talkdesk, alimentaram o imaginário de um Portugal capaz de competir nos mercados globais de inovação. As incubadoras multiplicaram-se, os fundos de capital de risco floresceram, os programas de aceleração sucederam-se.

Mas é preciso separar o ruído da realidade. O peso efetivo do sector tecnológico no PIB português continua a ser residual. As exportações de serviços de tecnologia, embora crescentes, representam ainda uma fração diminuta comparada com as receitas do turismo. E, sobretudo, a criação de emprego tecnológico de massa, aquele que poderia absorver os milhares de jovens que saem das universidades todos os anos, está longe de acontecer.

O problema é estrutural. O tecido empresarial português é maioritariamente composto por micro e pequenas empresas, com baixa capacidade de investimento em I&D, com gestão familiar, com horizontes de curto prazo. A indústria transformadora, que poderia ser a ponte natural entre os serviços e a tecnologia, foi desmantelada nas últimas décadas sem que nada de equivalente a substituísse.

Entretanto, os nossos jovens engenheiros, programadores, designers, são absorvidos por empresas estrangeiras em regime de trabalho remoto. Produzem para fora, pagam impostos cá dentro, mas o conhecimento, a propriedade intelectual, as decisões estratégicas, ficam lá fora. É uma espécie de colonialismo digital ao contrário: fornecemos a mão-de-obra qualificada, mas o comando permanece no centro.

O que fazer: a falácia da escolha

Há quem defenda que esta especialização em serviços é o nosso destino natural. Somos um país pequeno, periférico, sem matérias-primas, sem indústria pesada. O turismo e os serviços são o que temos de melhor. É um argumento que merece respeito, mas que esconde uma decisão política: a de aceitar a periferia como condição definitiva.

A alternativa não é abandonar os serviços, que continuarão a ser fundamentais. É complexificar a economia, criar ligações entre o turismo e a tecnologia, entre os serviços e a indústria. Um país que desenvolve software para gestão hoteleira, que produz equipamentos para energias renováveis, que investiga novos materiais para a construção sustentável, não está a escolher entre serviços e tecnologia. Está a fundi-los numa economia mais sofisticada.

Para isso, é preciso política industrial. É preciso investimento público em investigação, articulação entre universidades e empresas, fiscalidade favorável à inovação, formação contínua da população activa. É preciso, sobretudo, um entendimento partilhado de que o país não pode viver apenas de sol, praia e hospitalidade.

A geração que pode mudar o paradigma

Os meus alunos, aqueles que se calam quando confrontados com a lista das maiores empresas portuguesas, são também os que me procuram depois das aulas para falar de projetos, de ideias, de startups que querem lançar. São a geração que percebeu que o futuro não está nos empregos que os pais tiveram.

O desafio coletivo é criar condições para que esses projetos floresçam aqui. Para que o jovem que desenvolve uma aplicação inovadora não precise de ir para Berlim ou Amesterdão para encontrar investidores. Para que a investigadora que descobre um novo material não tenha de procurar laboratório em Munique. Para que o país dos serviços aprenda, finalmente, a sonhar com os pés assentes na terra.

Porque o problema não é sonhar com tecnologia. O problema é que, por enquanto, continuamos a vender sonhos a quem nos visita, enquanto os nossos próprios sonhos partem no primeiro voo.

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