O Nobel da Economia 2026: um paradoxo?

Por: António Mendonça

Bastonário

O Prémio do Banco da Suécia em Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel de 2026 foi atribuído a Robert E. Hall (Universidade de Stanford) e a Michael Woodford (Universidade de Columbia) “pelos fundamentos microeconómicos da estabilização”.

Hall e Woodford são, efetivamente, figuras que ajudaram a consolidar os fundamentos microeconómicos da chamada nova macroeconomia keynesiana, tendo contribuído para a arquitetura de novos modelos macroeconómicos que, de acordo com a Academia Sueca, reforçaram substancialmente a capacidade de conceber e executar as chamadas políticas de estabilização. As ideias desenvolvidas por estes autores estão também na base do papel atribuído ao forward guidance por parte dos bancos centrais e dos responsáveis pela gestão macroeconómica.

Todavia, tendo os contributos teóricos dos galardoados integrado o paradigma dominante que influenciou a condução das políticas económicas nas últimas décadas e que coexistiu com um período marcado pela liberalização do comércio internacional, pelo desenvolvimento das cadeias globais de valor e pela reafirmação da centralidade do dólar na economia mundial, dificilmente se poderá dizer que tenham conduzido efetivamente à eliminação, ou sequer ao controlo, das flutuações económicas.

Pelo contrário, o que se verificou, não obstante o controlo da dinâmica inflacionista – muito em resultado da aplicação generalizada das políticas contracionistas –, foi uma sucessão de perturbações económicas fortes: a crise asiática de 1997, a bolha tecnológica de 2000, a crise financeira global de 2008-2009, a crise das dívidas soberanas de 2010-2013, o choque energético em 2022 e, finalmente, a fragmentação geoeconómica e geopolítica em curso. Acresce a perda de dinamismo económico observada nas economias avançadas, particularmente na Europa, fenómeno que não é alheio às tensões políticas que hoje atravessam muitas destas sociedades.

O confronto com os resultados alcançados pelo intervencionismo keynesiano do pós-guerra, ou mais recentemente com o papel decisivo da política monetária não convencional de Draghi na resposta aos efeitos da crise financeira de 2008-2009 e seus desenvolvimentos posteriores, também não joga necessariamente a seu favor.

Na realidade, os modelos que lhe dão corpo produziram uma arquitetura intelectual que acabou por revelar limitações importantes quando confrontada com a sucessão de choques, ruturas, fenómenos financeiros e tensões geopolíticas que marcaram o período em que se afirmou como dominante. Quando se olha, hoje, para o ressurgimento das políticas industriais, os programas maciços de investimento público projetados, o CHIPS Act e o Inflation Reduction Act nos EUA, o rearmamento europeu, a gestão ativa das cadeias de abastecimento ou o retorno da geopolítica à economia, dificilmente encontramos o mundo idealizado pelo consenso macroeconómico em que o Nobel deste ano se insere.

Sem pôr em causa a relevância académica dos contributos de Hall e Woodford, a atribuição do Nobel parece reconhecer sobretudo a sofisticação intelectual de um paradigma cuja capacidade para explicar e enquadrar os grandes sobressaltos da economia mundial foi sendo progressivamente posta em causa pelos próprios acontecimentos. E, talvez, encerre um paradoxo que é o de celebrar o triunfo académico de uma visão do mundo económico no momento em que os decisores políticos parecem cada vez mais afastar-se dela.

In Jornal Económico – 23 de outubro

Uma resposta

  1. Boa tarde,

    De facto, estamos perante aquilo que, à primeira vista, poderá configurar um paradoxo. Contudo, importa reconhecer que, embora os mercados desempenhem um papel fundamental na afetação de recursos e na coordenação da atividade económica, nem sempre conseguem, por si só e de forma imediata, assegurar a estabilidade macroeconómica. É precisamente neste contexto que se coloca a questão do papel do Estado enquanto agente de estabilização económica.

    Obrigado.
    Cumprimentos.
    Ruy Manuel Pereira Duarte da Silva

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